Qual o impacto da hepatite B no Brasil e no mundo?

 

Em um contexto amplo, as hepatites virais representam um problema global de saúde pública. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,46 milhões de pessoas vieram a óbito em função desse grupo de doenças só em 2013,1 sendo classificada como a mais letal das doenças infecciosas.2 Desse expressivo montante, 96% se devem às variantes B e C.3 No Brasil, estima-se que a taxa de mortalidade por hepatite B corresponda a cerca de 0,3 a cada 100.000 habitantes-ano,4 tendo uma prevalência em torno de 2-7%, mas variando consideravelmente de acordo com a região analisada, particularmente no estado do Amazonas, considerado uma região endêmica.5

Estima-se que cerca de 90% das crianças com hepatite B desenvolvam um quadro crônico da doença, que no Brasil está associada a significativa desabilidade, estimada em mais de 57.000 anos de vida ajustado por incapacidade (DALY) (30,3 a cada 100.000 habitantes) e mais de 47.000 anos de vida perdidos (24,8 a cada 100.000 habitantes)6. Além disso, segundo dados levantados de custo para o Sistema Único de Saúde (SUS), estima-se que cada paciente crônico possa custar até R$90.000 no primeiro ano em pacientes que requerem transplante, além de outras complicações como o desenvolvimento de carcinomas hepatocelulares, com custo associado a mais de R$22.000 anuais por paciente.7

 

Por que é importante vacinar?

 

A vacinação é considerada a segunda estratégia mais efetiva para a redução da carga global de doenças infecciosas, atrás somente do acesso à água potável.8 Para se ter uma dimensão da importância associada às vacinas, estima-se que 4-5 milhões de vidas sejam salvas por imunizações de doenças como difteria, tétano e pertussis (DTP), bem como influenza e sarampo.9 Porém, em 2019, cerca de 19,7 milhões de crianças de até um ano de idade não receberam as três doses recomendadas de DTP (DTP3).9

Se aumentadas as taxas de cobertura vacinal em escala global, é estimado que cerca de 1,5 milhões de mortes sejam evitadas.10 Segundo a OMS, a vacinação é uma das estratégias de saúde pública mais custo-efetivas, permitindo não somente a prevenção de doenças e mortes associadas a doenças infecciosas como diarreia, sarampo, pneumonia, poliomielite e coqueluche, mas também está associada a melhorias na educação e no desenvolvimento econômico.10

Especificamente sobre a hepatite B, estima-se que, se adotada uma cobertura vacinal de 90% em escala global, será possível prevenir mais de 4 milhões de novas infecções entre 2015 e 2030 além de reduzir mais de 80% as mortes relacionadas à doença.11


Quais os desafios da vacinação para o combate de hepatites B no Brasil?

 

Desde 1996, o Brasil, a partir do Ministério da Saúde, instituiu um calendário vacinal contemplando bebês de até 1 ano de idade.5 Apesar dos esforços empreendidos para o aumento da cobertura vacinal, dados mais recentes demonstram uma queda significativa desta cobertura nos últimos dois anos, caindo de 88% em 2018 para cerca de 78% e 63% em 2019 e 2020, respectivamente, para hepatite B até um mês de vida.12

De acordo com dados da OMS, em uma perspectiva ampla, dentre as principais justificativas para a não vacinação neste período de pandemia por COVID-19, pode-se citar a restrição de acesso aos serviços de saúde, relutância em sair da casa, impacto sobre a locomoção, dificuldades econômicas e receio da exposição ao vírus SARS-CoV-213. Além disso, o número de injeções é também uma justificativa recorrente relatada pelos pais para a não vacinação de bebes e crianças14, cenário em que a maioria considera excessiva a aplicação de três injeções por dia de vacinação15. Outro problema relacionado ao número de aplicações é a perda de adesão dos pais, fator que está associado a uma potencial redução da cobertura vacinal16

Em outro aspecto, a disponibilização de vacinas é também um grande desafio logístico. Dados da OMS apontam que até 50% das vacinas são descartadas, grande parte em razão de falhas no controle de temperatura e falha na cadeia fria17.


É possível observar uma série de desafios inerentes ao cumprimento do calendário de 14–17, tópico particularmente sensível durante a pandemia, que impactou negativamente sobre a cobertura vacinal12,13