O congresso da American Thyroid Association de 2021 foi realizado online, mas continuou sendo um espaço de importantes comunicações e brilhantes discussões.1 Dentre as apresentações de destaque na área clínica, merece distinção a do Dr. Josh Evron, da University of North Carolina, que mostrou dados sobre uma avaliação da intensidade do tratamento com hormônios tireoidianos e o risco de morte cardiovascular.2

Utilizando dados da Veterans Health Administration, o Dr. Evron reuniu 701.929 pacientes que faziam uso de hormônio tireoidiano, seguidos por quatro anos em média.2 Estudou a influência do estado tireoidiano definido pelas medidas de TSH e T4L sobre a mortalidade e avaliou covariáveis de risco que incluíam idade, sexo, raça, etnia, fumo, hipertensão, dislipidemia, diabetes e história de doença cardiovascular e de arritmias.2 Tanto o excesso quanto a falta de níveis adequados de hormônios tireoidianos se relacionaram com o aumento do risco de morte.2 

O Dr. Evron concluiu que tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo exógeno se associam ao aumento do risco de morte por fator cardiovascular.2 Mais ainda, o aumento de risco foi proporcional ao grau de anormalidade do TSH.2 Esses dados ressaltam a necessidade de conservar os pacientes em tratamento com hormônios tireoidianos dentro do alvo terapêutico. 

Outro trabalho interessante foi apresentado de forma oral pelo Dr. Oscar Roa Dueñas.3 Com base nos dados do famoso estudo de Roterdã, com uma população seguida desde 1989, esse interessante estudo mostrou que existe uma relação entre o nível de T4 livre (T4L) e o fluxo de sangue arterial em vasos da retina.3 Os vasos eram mais estreitos em quem tinha TSH elevado e anticorpos antitireoide.3 O fluxo cerebral foi menor nos indivíduos idosos e com níveis de T4 livre elevados, o que sugere que a disfunção tireoidiana pode levar a menor circulação cerebral.3 Essa menor circulação poderia ter relação com demência, isquemia cerebral transitória ou outras afecções clínicas.3 

Entre os simpósios mais interessantes, destacou-se o que discutiu os impactos da COVID-19 sobre a tireoide.1 A Dra. Laura Fugazzola, da Universidade de Milão, na Itália, resumiu os impactos da infecção por SARS-CoV-2 sobre o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide e o espectro de anormalidades relacionadas a ele.1 Destacou os relatos de tireoidite subaguda que aparecem de duas a cinco semanas após o episódio infeccioso.1 Também destacou o impacto de várias drogas interferentes e a síndrome do doente grave eutireoidiano, causadoras frequentes, mas geralmente transitórias, de anormalidades hormonais nos pacientes com COVID-19.1 Em seguida, o Dr. David Ingbar, da Universidade de Minnesota, trouxe interessantes dados sobre o efeito da administração de li-iodotironina (LT3) em aerossol ou intratraqueal sobre o pulmão e seu impacto na melhora da síndrome respiratória aguda causada por SARS-CoV-2.1 Finalmente, Melissa Lechner, da UCLA, mostrou os riscos de infecção em pacientes com câncer de tireoide, abordou as disparidades no tratamento do câncer de tireoide durante a pandemia e o impacto da COVID-19 sobre o tratamento desses pacientes oncológicos.1 Mostrou que os pacientes com câncer diferenciado de tireoide não têm maior risco de infecção por SARS-CoV-2 nem foram, em sua maioria, afetados pela demora no atendimento presencial ocasionada pela pandemia.1

Um dos simpósios mais interessantes, que contou com maior público nesta 90ª Reunião da American Thyroid Association, foi sobre a mudança de paradigmas no tratamento do hipotireoidismo.1 O simpósio começou com a Dra. Jacqueline Jonklaas, do Georgetown University Medical Center, falando sobre quando e como usar LT3 e LT4 nos dias atuais.1 A Dra. Jonklaas começou lembrando que de 9% a 14% dos pacientes que fazem uso de LT4 se declaram insatisfeitos com a medicação.4 Aventou várias causas para tanto e comentou os estudos já publicados que compararam a clássica terapia com LT4 à terapia combinada de LT4 mais LT3, criticando a heterogeneidade desses estudos tanto no delineamento quanto pelo fato de muitos deles não terem desfechos validados e apresentarem problemas de delineamento.4,5 Concluiu que, de modo geral, os estudos que compararam a terapia com LT4 com a da combinação de LT4 mais LT3 ou com tireoide dissecada mostraram desfechos similares tanto na qualidade de vida quanto no humor e nas avaliações de função cognitiva.4,5 No entanto, os pacientes que tinham maiores queixas relacionadas ao tratamento com LT4 responderam positivamente ao uso de LT4 mais LT3 ou de tireoide dissecada.4,5 A Dra. Jonklaas discutiu os parâmetros que são propostos para indicar o uso de terapia combinada e como utilizar LT3, observando que sua administração causa um pico de T3 sérico, como mostra a figura 1.5 Além disso, questionou o risco de progressão de câncer pelo uso de terapia combinada.