As vacinas combinadas totalmente líquidas têm o potencial de simplificar os esquemas de imunização e melhorar a eficiência dos programas de imunização. A vacina que requer preparação possui duas desvantagens principais em relação às prontas para uso: a primeira é o tempo requerido na preparação e a segunda é a qualidade de administração das vacinas. No primeiro aspecto, estima-se que até 25% do tempo de vacinação seja dispendido com a preparação,1 tendo impacto sobre os custos programáticos gerais associados ao programa de vacinação, particularmente mais evidente em regiões de maior densidade populacional.2 No segundo aspecto, assegurar a qualidade do preparo e aplicação é uma etapa fundamental para o sucesso do programa vacinal, mantendo a integridade do imunizante durante a transferência do frasco à seringa e dessa ao paciente. No entanto, erros de imunização estão mais propensos a ocorrer em vacinas que requerem reconstituição, se comparadas a vacinas prontas para uso.2

 

É o que demonstrou um estudo comparando ambas as classes de imunizantes, onde se registrou que mais de 80% dos erros de imunização eram atribuíveis ao processo vacinal do imunizante não prontamente líquido, enquanto menos de 20% foram decorrentes da vacina totalmente líquida.2

 

Tipos de erro de imunização em processo vacinal totalmente líquido vs. não totalmente líquido2

Outro tema tratado nesse estudo foi o tempo de preparo até o imunizante estar apto para aplicação. Foi observado que esse tempo foi 50% menor para a vacina totalmente líquida, em comparação à que requer reconstituição, com disparidade mais acentuada em profissionais de saúde com menos de 10 imunizações efetuadas por semana.2 Por fim, em uma avaliação da satisfação de profissionais da saúde que participaram do estudo a respeito de qual imunizante preferiam adotar para uso em seu dia-a-dia, mais de 97% deles escolheram as vacinas prontas para uso.2

 

Em um estudo conduzido na Espanha, verificou-se tendência semelhante entre profissionais da saúde. Nessa publicação, 201 enfermeiras foram entrevistadas sobre suas experiências com formulações hexavalentes prontas para uso em comparação a vacinas que precisam ser reconstituídas. Observou-se que cerca de 92% delas relataram uma experiência positiva com vacinas prontas para uso, 84,1% relataram maior receio de cometer erros em vacinas que requerem reconstituição (liofilizadas) e 74,1% sentiram maior facilidade e conveniência na aplicação de vacinas prontas para uso em comparação às liofilizadas.3 Outros parâmetros avaliados no estudo também foram mais favoráveis às vacinas prontas para uso, como menor risco de administração (42,8% vs. 4%), o menor risco de ferimentos por agulha (42,3% vs. 9,5%) e redução do tempo de administração da vacina (decréscimo médio de 1,1 minutos).3

 

Com reduzido número de aplicações aliado a menor potencial para efeitos adversos, a vacina hexavalente pronta para uso está associada a elevados níveis de satisfação dos pais. As vacinas combinadas oferecem um diferencial bastante atrativo, uma vez que seria necessário um número reduzido de administrações, diminuindo o potencial para reações locais e choro dos bebês, além de otimizar as visitas necessárias para cumprimento do calendário vacinal.4 Com uso versátil, as vacinas hexavalentes ainda poderem ser coadministradas a outras vacinas contempladas no calendário recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), como a pneumocócica e rotavírus.5 Outro ponto forte a favor das vacinas hexavalentes sem componentes celulares (vacinas acelulares) é a menor taxa de eventos adversos associada à formulação.6 Segundo revisão sistemática, incluindo dados de mais de 136 mil pacientes para avaliar a segurança de vacinas contra a coqueluche, quando comparadas a vacinas celulares, as acelulares apresentaram uma taxa de efeitos adversos significativamente menor, tanto para a primeira dose como para a dose de reforço.6

Taxa de eventos adversos de vacinas acelulares vs. celulares para coqueluche6

Em uma avaliação focada na satisfação dos pais frente a estratégia vacinal com imunizante pentavalente aliada a poliomielite por via oral (VOP) comparada a vacina hexavalente, dois questionários foram aplicados, um no momento da aplicação e outro após uma semana.7 O primeiro questionário consistia na experiência da vacinação, avaliando satisfação e reação da criança durante a aplicação, o segundo, avaliou o bem-estar após a vacinação, se houve mudança de comportamento e impacto na rotina da família como um todo.7 Em todos os parâmetros avaliados, a vacina hexavalente foi significativamente superior (p<0,05), resumidamente, os pais com filhos vacinados com este imunizante apresentaram maior probabilidade de maior satisfação (2,8 vezes), maior adesão (2,6 vezes), maior propensão ao aceitar recomendações para vacinação (2,2 vezes) e mais segurança de que a vacinação não terá efeito sobre a rotina (1,9 vezes).7

Benefícios identificados em pais de filhos vacinados com imunizante hexavalente comparado a pentavalente + poliomielite oral7 

É possível observar que a vacina hexavalente acelular esteja associada a uma série de benefícios,2,4–6 sendo preferida tanto por profissionais da saúde como pais,2,7 contribuindo para potencial maior cobertura vacinal e menor uso de recursos em saúde.2,7


A eficácia e segurança de vacinas podem ser comprometidas por problemas na cadeia fria.
Grande parte das vacinas precisam ser mantidas em um faixa curta de temperatura, geralmente entre 2-8ºC, impondo grande desafio logístico ao sistema de saúde, independentemente se público ou privado.8 O transporte refrigerado em condições de controle minucioso de temperatura em cada etapa da chamada cadeia fria é fundamental para assegurar a estabilidade, potência e consequente efetividade do imunizante.8 Tamanho é o desafio, que a Organização Mundial da Saúde reporta que até metade das vacinas são comprometidas por problemas de transporte e/ou armazenamento inadequados, ou controle de temperatura subótimo durante esse processo.9 Em tempos de pandemia por COVID-19, o custo dessa perda pode chegar a bilhões de dólares.8 Além disso, segundo recomendações da OMS, para se assegurar a efetividade do processo vacinal contra o vírus SARS-CoV2, a capacidade da cadeia fria deve ser substancialmente incrementada, intensificando o desafio ao já desfavorável cenário atual.10

A estabilidade assegurada de algumas vacinas prontas para uso oferece maior resiliência a alterações de temperatura, podendo suprir necessidades atuais da cadeia fria, reduzir custos e aumentar a cobertura vacinal por assegurar a potência e efetividade da vacinação8

Algumas vacinas hexavalentes prontas para uso podem apresentar uma janela mais ampla de temperatura, garantindo maior estabilidade no transporte e armazenamento do imunizante. Reporta-se frequentemente que os custos relacionados à distribuição e administração da vacina excedem o custo de produção do imunizante, impondo significativos obstáculos às campanhas de imunização globalmente.11 Para transpor essas barreiras, algumas características podem ser fundamentais ao imunizante, reduzindo o potencial erro ou limitação do processo vacinal e da cadeia fria.11 Segundo estudo reunindo mais de 150 stakeholders de campanhas de imunização em países de baixa e média renda, incluindo o Brasil, visando identificar atributos essenciais dos imunizantes frente aos desafios logísticos e de infraestrutura, dentre as principais características citadas (por mais de 30% dos participantes), estão: resiliência a alterações da temperatura (dano por calor), pré-envasamento e dose única por aplicação.12

Ranking das 10 melhorias em vacinas mais sugeridas por stakeholders de programas vacinais em países de baixa e media renda12

Embora ainda necessitem ser mantidas tipicamente entre 2-8ªC,13 a depender do imunizante, a janela de estabilidade pode ser bastante ampla, como por exemplo 72h em temperatura ambiente (25ºC) em uma formulação pré-envasada,14 o que pode conferir significativa vantagem em termos logísticos e de cadeia fria. Isso, porque não é incomum encontrar situações em que as condições de armazenamento das vacinas sejam inadequadas, até mesmo países como os Estados Unidos sofrem com este problema.15 Segundo estudo realizado em solo norte-americano, um órgão governamental fiscalizou 45 distribuidores das 5 cadeias de maior volume de vacinas, monitorando a temperatura das unidades de armazenamento por um período de 2 semanas.15 Descobriu-se que 76% dos 45 distribuidores selecionados mantinham as vacinas em condições de temperatura inadequadas, somando pelo menos 5 horas cumulativas durante esse período.15 Erros como este podem comprometer a estabilidade da formulação, causando perda de eficácia e expondo crianças ao risco de não estarem completamente protegidas, mesmo vacinadas.15


Observa-se que a manutenção da estabilidade é um grande desafio logístico8–10 e, em um país com uma extensão continental como o Brasil, este é um tema ainda mais sensível.16 No entanto,  algumas vacinas prontas para uso possuem um diferencial neste aspecto, uma janela de estabilidade mais ampla, permitindo maior resiliência a variações de temperatura.14 Além disso, outros elementos como doses individuais e seringas pré-envasadas tornam as vacinas prontas para uso um importante aliado na prevenção de doenças infecciosas, possuindo características almejadas por diversos stakeholders de programas vacinais no mundo.12