Os avanços da tecnologia tornaram inevitável sua introdução em nossas vidas. Com isso, as crianças que se encontram em uma fase vulnerável do desenvolvimento estão gastando mais tempo em dispositivos eletrônicos. Alguns estudos já relataram efeitos negativos no sono, na saúde física, como obesidade e problemas de visão, e mudanças comportamentais, como comportamento agressivo com exposição a conteúdo violento de mídia.1

No entanto, os benefícios do uso de dispositivos eletrônicos são inegáveis, como facilitar a comunicação social entre as crianças nesses longos períodos de isolamento social e atividades ao ar livre restrita e, além disso, revolucionar a aprendizagem, pois as crianças conseguem ter fácil acesso ao conteúdo educacional.1

De acordo com as recomendações da Academia Americana de Pediatria sobre a utilização e o tempo de tela, é recomendado que os cuidadores assistam a bons programas com crianças de 2 a 5 anos de idade, com duração não superior a uma hora por dia. Crianças acima de 5 anos podem assistir a programas sozinhas enquanto aderem às restrições claras de tempo de tela. A Organização Mundial da Saúde, da mesma forma, recomenda que crianças de 4 a 6 anos de idade não ultrapassem uma hora de tela por dia.1

Os marcos do desenvolvimento infantil podem ser divididos nos seguintes domínios: habilidades motoras, domínios socioemocionais, linguagem/comunicação e domínios cognitivos, e esses marcos podem ser afetados pelo aumento do tempo de tela em crianças de 4 a 6 anos de idade.1

Estudos diversos já identificaram a associação entre o tempo de uso de dispositivos por crianças e prejuízos em diferentes aspectos das habilidades sociais, incluindo sintomas semelhantes ao transtorno do espectro autista (TEA) em pré-escolares. Todavia, não há dados suficientes sobre a associação entre exposição ao tempo de tela e sintomas semelhantes ao TEA, como atraso no desenvolvimento da linguagem, interações sociais incomuns, entre outros.1 

O objetivo desse estudo foi examinar a associação entre o tempo de tela e as habilidades de comunicação social em crianças de 4 a 6 anos de idade na Arábia Saudita por meio da utilização do Questionário de Comunicação Social (SCQ), além de identificar os fatores associados a altos escores no SCQ.1

A pesquisa foi um estudo transversal que examinou a relação entre o desenvolvimento de habilidades sociais e o tempo de tela usando uma versão árabe validada do SCQ, composto por 40 itens e que realiza um rastreamento de sintomas associados ao TEA a partir do relato dos pais. A amostra desse estudo foi composta por 308 crianças de 4 a 6 anos. Além de avaliar a relação entre desenvolvimento de habilidades sociais e tempo de tela, o estudo analisou fatores associados a maiores pontuações no SCQ.1

Os resultados foram capazes de mostrar diferentes prejuízos nas habilidades sociais:1 
  • 20,4% das crianças tinham problemas com o bate-papo social;
  • 20,1% não conseguiam entender a comunicação não verbal;
  • 34,1% não estavam interessadas em colegas;
  • 32,1% não tinham um melhor amigo;
  • 40,3% não usavam a comunicação gestual para chamar a atenção.
Os resultados mostraram que as horas gastas no uso do dispositivo eletrônico foram significativamente associadas a apresentar maior escore no SCQ, ou seja, pontuação ≥15 (p<0,05).1  

Com relação aos fatores associados a maiores escores no SCQ, o estado civil e a escolaridade do cuidador mostraram associação significativa com um escore mais alto, mas não mostraram uma relação significativa entre uma pontuação de SCQ >15.1

Um estudo de coorte de 2.152 crianças foi realizado para determinar a associação entre tempo de exposição à tela nos primeiros 18 meses de vida e o desenvolvimento de sintomas semelhantes ao TEA usando a escala Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT) aos dois anos. Esse estudo mostrou que a exposição ao tempo de tela no início da vida pode estar associada a sintomas semelhantes ao TEA. Curiosamente, estudos anteriores concluíram que as crianças com TEA possuem uma atração notável pela visualização de telas em uma idade mais precoce, em comparação com seus pares saudáveis. Isso é explicado pelo fato de crianças com TEA apresentarem menor interesse por atividades de lazer social e preferência por atividades de computação em vez de interação em redes sociais, pois essas exigem um maior engajamento social.1 

Além disso, pesquisas anteriores comprovaram que a gravidade dos sintomas do TEA é proporcional ao tempo de tela, claramente reconhecido na responsividade sensorial atípica e maior suscetibilidade ao atraso no desenvolvimento, especificamente no domínio da linguagem.1 

Um estudo em larga escala foi realizado na Coreia em crianças pequenas para determinar o efeito do tempo de tela no desenvolvimento da linguagem. Por meio de várias entrevistas e questionários, descobriu-se que o atraso na linguagem é proporcional ao tempo de tela, com um risco 2,7 vezes maior para aquelas que passam duas horas assistindo à televisão. A confiabilidade desses dados é afetada por vários fatores.1
 
A presente pesquisa apresentou algumas limitações, como: os dados foram coletados durante a pandemia de COVID-19, quando todas as escolas mudaram para aulas e atividades virtuais e, em segundo lugar, os resultados se baseiam na lembrança do cuidador.1

O estudo pode concluir que existe uma associação significativa entre as horas diárias gastas em dispositivos eletrônicos, especialmente mais de três horas, e ter um escore SCQ acima de 15, o que pode sugerir a presença de sintomas semelhantes aos sintomas de TEA, indicando a necessidade de uma avaliação clínica mais abrangente para confirmar o diagnóstico.

No entanto, o tipo de associação ainda não foi estabelecido. As descobertas podem ser usadas para aumentar a conscientização sobre esse assunto e ajudar a definir diretrizes sobre o uso das mídias para crianças. Estudos futuros são necessários para avaliar essa associação.1

O estudo pode concluir que existe uma associação significativa entre as horas diárias gastas em dispositivos eletrônicos, especialmente mais de três horas, e ter um escore SCQ acima de 15, o que pode sugerir a presença de sintomas semelhantes aos sintomas de TEA, indicando a necessidade de uma avaliação clínica mais abrangente para confirmar o diagnóstico.