Quais são os quadros otorrinolaringológicos em que a dor mais incomoda as crianças?

Existem várias doenças otorrinolaringológicas e condições clínicas potencialmente capazes de produzir dor e desconforto tanto no adulto quanto na criança, inclusive pós-operatórios de tonsilectomias, otites externas e estomatites, entre outras. Mas seguramente as causas mais comuns, até pelo fato de serem muito frequentes, particularmente na infância, são as infecções agudas de vias respiratórias,1 entre as quais as otites médias e as faringotonsilites.
 

Existe indicação de uso de AINHs em quadros de amigdalites virais, por exemplo?

As amigdalites virais, assim como outras infecções respiratórias virais, ainda representam um grande desafio em nosso dia a dia, pois são poucas as opções de tratamento. A dor de garganta e a febre são habitualmente os principais sintomas decorrentes do processo inflamatório agudo, de forma que acredito que, nesses casos, os anti-inflamatórios não hormonais (AINHs) seriam, sim, indicados, principalmente nos primeiros dias de evolução da doença, quando os sintomas estão mais exacerbados.2

Existem significativas evidências na literatura de que o adulto se beneficia do tratamento com AINHs nas faringotonsilites estreptocócicas 2 e de que, nas crianças, pouco tempo de tratamento com AINHs seria suficiente para a melhora da maioria dos casos de faringotonsilite na rotina ambulatorial.3

É importante lembrar que precauções devem ser tomadas com o uso de AINHs nos pacientes hepatopatas, nefropatas, desidratados e nos sabidamente portadores de gastropatia ou sensíveis aos AINHs.4

Qual é sua opinião sobre a associação de AINHs e antibióticos nos casos em que a etiologia bacteriana está definida?

Na verdade, o quadro inflamatório e doloroso independe do agente etiológico (viral ou bacteriano), e o quadro inicial, seja de faringotonsilite, seja de otite média aguda, independentemente do uso de antibiótico, vai manifestar-se com dor e febre na maioria das vezes, mesmo nos casos em que o uso de
antibiótico é indicado.2,5

Corticosteroides ou AINHs? Quando optar por um dos dois?

Em se tratando de infecção das vias aéreas superiores (IVAS), viral ou bacteriana, em geral, os corticosteroides, devem ser utilizados com cautela.6 Infelizmente, o que se verifica na prática clínica mais recente, além do uso exagerado de antibióticos, é o abuso e a banalização do uso de anti-inflamatórios esteroides
no tratamento de IVAS, sobretudo em crianças.6,7

Uma revisão sistemática recente, com metanálise, mostra que mesmo o uso de corticosteroides durante curtos períodos em crianças pode produzir efeitos colaterais devastadores, como hipertensão sistêmica e alteração do eixo hipotalâmico-hipofisário, além de vômitos, distúrbios do sono e de comportamento, entre outros.8

O diclofenaco e a nimesulida ainda são boas opções em pediatria?

Embora muitos pediatras façam uso desses medicamentos em crianças, é importante mencionar que os AINHs diclofenaco e nimesulida não estão liberados para crianças pequenas.9-11

No Brasil, a nimesulida só pode ser prescrita para crianças a partir de 12 anos de idade9 e o diclofenaco sódico a partir de 18 anos de idade.11. O diclofenaco risenato tem indicação em bula para crianças a partir de 1 ano de idade somente para os casos crônicos de AIJ (artrite idiopática juvenil).10

Segundo os registros da ANVISA em nosso país, o cetoprofeno está liberado para crianças pequenas, a partir dos primeiros anos de vida. O uso da formulação gotas é liberado a partir de 1 ano de idade e o do xarope a partir de 6 meses.4