Existem dois principais tipos de vacinas para coqueluche (pertussis) disponíveis para a administração na população: as vacinas celulares (wP) e as vacinas acelulares (aP).1 As vacinas celulares são produzidas a partir da inativação dos patógenos (como bactérias). Dessa forma, essas vacinas possuem diversos componentes diferentes do patógeno em sua formulação. Por outro lado, as vacinas acelulares são formuladas a partir de componentes isolados dos patógenos obtidos através de um processo de extração e purificação físico-químico.1

Diferentes tipos de vacina1

Adaptado de: World Health Organization (WHO). Weekly Epidemiological Record (WER): 28 August 2015, vol. 90, 35 (pp. 433–460). Published 2015. Accessed May 26, 2021. https://www.who.int/wer/2015/wer9035/en/.

Os dois tipos de vacina possuem o mesmo objetivo: proteção contra a infecção de determinadas doenças.2 O mecanismo de ação difere um pouco entre as vacinas: nas vacinas celulares, nosso sistema imune possui diversos alvos para processar, gerando, assim, anticorpos para esses diferentes alvos.3 Já as vacinas acelulares possuem um foco específico em determinados antígenos, criando anticorpos apenas para esses alvos administrados.3

Se temos dois tipos de vacina, uma é mais eficaz que a outra?


Essa é uma afirmação que não pode ser feita, visto que não existem estudos que comparem diretamente os dois tipos de vacina.1,4 O que podemos observar nos estudos realizados é que ambos os tipos de vacinas são eficazes.4,5 

Se ambas as vacinas são eficazes, por que precisamos de vacinas acelulares?

 
A ocorrência de eventos adversos com a utilização das vacinas celulares coincide com o surgimento de movimentos antivacinação em várias regiões do mundo.6 Dessa forma, as vacinas acelulares surgiram para suprir a necessidade de uma redução nos eventos adversos que ocorriam nas vacinas celulares.4 Assim, as vacinas acelulares demonstram uma melhor confiança no momento da administração, e benefícios financeiros pela redução dos eventos adversos.5,8-10

As vacinas acelulares demonstram um bom perfil de segurança, o que pode trazer benefícios para o sistema de saúde, como a redução do custo para o tratamento de eventos adversos quando comparadas às vacinas celulares conforme estudos econômicos realizados na Argentina e Chile.5,7

A adoção de vacinas acelulares com um perfil de tolerabilidade aceitável tem impactos positivos no programa de vacinação. Após a vacinação, é comum que as pessoas apresentem alguns eventos adversos, como febre, dor, vermelhidão e irritabilidade, por exemplo, mas esses efeitos se mostram reduzidos em vacinas acelulares.7 Um estudo internacional investigou os eventos adversos comparando os dois tipos de vacinas. Foi encontrado que, nos eventos adversos estudados, as vacinas acelulares apresentaram um menor número de eventos adversos quando comparadas às vacinas celulares.7 Em uma revisão sistemática de estudos clínicos, foi possível observar que as vacinas acelulares demonstram um menor número de eventos adversos graves quando comparadas às vacinas celulares,5 confirmando seu perfil de segurança favorável e melhor aceitação na vacinação.5

Eventos adversos graves relacionados à vacinação5

Adaptado de: Zhang L, Prietsch SO, Axelsson I, Halperin SA. Acellular vaccines for preventing whooping cough in children. Cochrane Database Syst Rev. Published online September 17, 2014. doi:10.1002/14651858.CD001478.pub6.

Nesse cenário, experiências com vacinas acelulares em alguns países têm demonstrado benefícios. Na Turquia, a mudança de vacinas celulares para acelulares demonstrou um perfil de segurança mais favorável, reduzindo os eventos como febre, irritabilidade, redução de apetite, choro e problemas com o sono.11 Essa mudança no tipo de vacina também foi associada ao aumento da cobertura vacinal.11 Nos Países Baixos, com a introdução de vacinas acelulares em crianças de até 18 meses de idade, foi possível observar uma redução de 4 vezes o choro prolongado e a febre alta; redução de 6 vezes na palidez e redução de 3 vezes na porcentagem de uso de remédios para dor.12

Além de afetarem a qualidade de vida das pessoas, esses eventos adversos podem estar relacionados a um maior custo para o sistema de saúde e para a sociedade.9 Em uma avaliação econômica realizada na Argentina, foi possível observar que os custos com eventos adversos foram de aproximadamente 50% para um esquema de vacinação com vacinas celulares, comparado com 5% para as vacinas acelulares.9

O manejo de eventos adversos pode gerar custos para o sistema de saúde e para a sociedade9,10

 
Adaptado de: Gentile et al. Análisis económico de las vacunas del primer año de vida con componente pertussis en el  contexto de la iniciativa mundial de erradicación de la poliomielitis en Argentina. Rev Chil Infectología. 2021;38(2):224-231. 
https://www.revinf.cl/index.php/revinf/article/view/892/587. Olivera I, Grau C, Dibarboure H, et al. Valuing the cost of improving Chilean primary vaccination: a cost minimization analysis of a hexavalent vaccine. BMC Health Serv Res. 2020;20(1):295. doi:10.1186/s12913-020-05115-7.
 
Sob a perspectiva da sociedade, os custos diretos e indiretos relacionados à vacinação foram 6 vezes maiores para o esquema de vacinação com vacinas celulares.9 Da mesma forma, um estudo conduzido no Chile com dados de uma coorte com cerca de 499 mil crianças com menos de 2 anos de idade demonstrou que as vacinas celulares geraram, em 2016, um custo de até 8,84 milhões de dólares só com o cuidado adicional com os eventos adversos.10

Os benefícios da introdução de vacinas acelulares em programas de vacinação são evidentes, especialmente em relação ao aumento da cobertura vacinal. Esse evento foi observado na França, que introduziu a vacina acelular para coqueluche no seu calendário em 2008.13 Comparando os anos de 2006 (antes da introdução da vacina acelular) e 2011 (após a introdução da vacina acelular), houve um crescimento de 90% na taxa de cobertura vacinal para coqueluche no país (de 39% em 2006 foi para 74% em 2011).13

Aumento na cobertura vacinal após o início da utilização de vacinas com componente pertussis acelular13

Adaptado de: Haute Autorité de Santé. Commission De La Transparence. INFANRIX. Published 2013. Accessed May 31, 2021. https://www.has-sante.fr/upload/docs/evamed/CT-12614_INFANRIX HEXA_RI_reevalASMR_avis2_CT12614.pdf.

A troca no programa de imunização de uma vacina celular para uma vacina acelular pode gerar benefícios para a população.8,14-16 Uma experiência exitosa em relação à imunização para coqueluche foi a troca de vacinas celulares para vacinas acelulares que ocorreu no México. Nesse país, houve uma redução de 33% no número de morbidade e 78% na mortalidade por coqueluche (também conhecida como pertussis) logo após a troca para vacina acelular.8,14 Outro estudo realizado no México demonstrou que há uma redução de 70% em hospitalizações em crianças de zero a dois meses após a vacinação materna com vacinas acelulares.15 Essa redução na hospitalização está de acordo com um estudo canadense, onde foi estimado que a troca para a vacina acelular demonstrou que 90 consultas de emergência e 9 admissões hospitalares seriam evitadas por mês.16

Resultado do início da vacinação com vacinas acelulares no México8,14,15

* 2004 a 2006: casos 354,9/100 mil altas hospitalares e 42 mortes; 2007 a 2009: casos 237,3/100 mil altas hospitalares e 9 mortes. 
** Cobertura de 1 milhão de crianças por ano no período de 2010 a 2018. Foram analisadas crianças com idade ≤ 2 a ≤ 12 meses.
Adaptado de: Gentile A, Bricks L, Ávila-Agüero ML, et al. Pertussis in Latin America and the Hispanic Caribbean: a systematic review. Expert Rev Vaccines. 2019;18(8):829-845. doi:10.1080/14760584.2019.1643241.8 Reyna Figueroa J, Vidal Vázquez P, López-Collada VR. Epidemiología de las enfermedades prevenibles con la vacuna pentavalente acelular en México. Vacunas. 2013;14(2):62-68. doi:10.1016/j.vacun.2013.06.004.14  Guzman-Holst A, Luna-Casas G, Cervantes-Apolinar MY, Huerta-Garcia GC, Juliao P, Sánchez-González G. Pertussis infant morbidity and mortality trends after universal maternal immunisation in Mexico: An ecological database study with time-series analysis. Vaccine [Internet]. 2021;39(16):2311–8. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/33773845.15

Além da eficácia das vacinas e da redução na utilização do sistema de saúde, a aceitação das vacinas acelulares é maior do que das vacinas celulares.17 Em um estudo conduzido no Chile, que entrevistou pais de crianças vacinadas com vacinas celulares (grupo 1) e vacinas acelulares (grupo 2), demonstrou que os pais do grupo 2 estavam mais satisfeitos com a vacinação.17 Além da satisfação dos pais, outros pontos importantes foram encontrados, como a chance de levar o filho para uma segunda dose da vacina, seguimento das orientações dos profissionais de saúde e a confiança que a vacinação não atrapalhará a rotina diária da família foram maiores no grupo de vacinas acelulares.17 

As vacinas acelulares demonstram um avanço na tecnologia de vacinação para a população. Esse tipo de vacina é comprovadamente eficaz, como as vacinas celulares, mas a grande diferença é que as vacinas acelulares possuem um perfil de segurança mais tolerável.Essa segurança leva confiança no momento da vacinação, pois indica que as pessoas vacinadas terão menos eventos adversos após essa importante etapa.17 Além do aumento da confiança no momento da vacinação, a redução dos eventos adversos é importante quando levamos em consideração as questões financeiras relacionadas à vacinação, pois é possível observar uma redução no custo total para o tratamento de eventos adversos em estudos realizados em países da América Latina.9,10