A osteoartrite (OA) é uma doença crônica e degenerativa que leva à deterioração progressiva da cartilagem articular do joelho. Aproximadamente de 10% a 12% da população global adulta sofre com os sintomas da osteoartrite, e a articulação do joelho é acometida em cerca de 250 milhões de pessoas em todo o mundo.2-5

O tratamento da OA de joelho por meio de injeções de ácido hialurônico (AH) vem sendo realizado há vários anos,6-10 relatando-se alívio de 40% a 50% da dor em comparação aos níveis de pré-tratamento, com melhora significativa em relação ao placebo.11

O hilano G-F 20 (Synvisc®) deriva de um glicosaminoglicano de molécula grande e linear chamado hialuronato, um dos componentes naturais do líquido sinovial encontrado nas articulações do corpo humano. O hilano G-F 20 se diferencia dos outros produtos (ácidos hialurônicos) por sua estrutura química peculiar e seu alto peso molecular, que apresenta propriedades viscoelásticas mais elevadas que as dos ácidos hialurônicos de baixo peso molecular (AHBPM).8,12

Vários ensaios clínicos randomizados foram delineados para comparar o ácido hialurônico de alto peso molecular (AHAPM) hilano G-F 20 com os AHBPM, no entanto sua superioridade ainda é discutida.1 Uma metanálise prévia publicada em 2007 concluiu que não existia superioridade do hilano G-F 20 sobre os AHBPM, além do fato de aquele ter apresentado maior número de reações adversas no local da infiltração. Entretanto, essa mesma metanálise agrupou os resultados encontrados sobre melhora da dor de diferentes períodos de avaliação em um só grupo e não realizou uma análise de subgrupos em períodos distintos para avaliar se houve algum momento em que se constatou superioridade de um produto sobre o outro.13 Desde a publicação dessa metanálise, vários ensaios clínicos randomizados bem delineados foram publicados na literatura.8,14-19

O objetivo da metanálise atual é esclarecer as diferenças dos resultados e da segurança do hilano G-F 20 em comparação aos AHBPM. Para efetuar essa avaliação, uma revisão sistemática e metanálise foram realizadas, com pesquisa detalhada dos órgãos de busca de artigos (MEDLINE, EMBASE, EBSCO, LILACS, Sinomed, OVID, SCI, Elsevier, MDConsult, Springer, CINAHL, Plus, Wiley, HighWire, Cochrane e Cochrane Center), para identificar os estudos relevantes nessa comparação. Todos os artigos encontrados até fevereiro de 2016 foram incluídos na avaliação.1

Incluíram-se também ensaios clínicos prospectivos randomizados que compararam o tratamento com hilano G-F 20 aos AHBPM na osteoartrite sintomática femorotibial medial e/ou lateral de joelho, além de estudos de avaliação de resultados e reações adversas relativas ao tratamento e artigos em que as características pré-tratamento (idade, sexo,
estágio da OA, IMC, nível de sintomas) eram semelhantes entre os grupos. Foram excluídos estudos que avaliaram a OA femoropatelar, estudos que não usaram AHBPM como controle ou hilano G-F 20 como tratamento e múltiplas publicações sobre a mesma população (duplicação de resultados).1

Houve inclusão de 20 estudos nessa metanálise, totalizando-se 3.034 pacientes e 3.153 joelhos, com perda de seguimento de 7,2% dos pacientes, sem diferença estatística entre os grupos (p=0,96). Em consequência, incluiu-se nessa análise um total de 2.816 pacientes e 2.905 joelhos, sendo 1.290 pacientes (com 1.332 joelhos) do grupo hilano G-F 20 e 1.526 pacientes (com 1.573 joelhos) do grupo AHBPM. Não houve diferença demográfica entre os dois grupos.1

Melhora da dor


Um total de 18 artigos foi incluído na avaliação de melhora da dor na comparação de hilano G-F 20 e AHBPM. Realizaram-se análises de subgrupos relativas à dose única de Synvisc® (Synvisc-One®) e AHBPM, artigos com e sem financiamento de indústrias, resultados comparativos de hilano G-F 20 e AHBPM após 1 mês, 3 meses, 4 a 12 meses e 2 a 3 meses de tratamento.1

Observou-se superioridade do tratamento com hilano G-F 20 em relação aos AHBPM entre dois e três meses de tratamento, com significância estatística (p=0,02). Na tentativa de diminuir vieses em relação à heterogeneidade dos trabalhos, realizou-se nova avaliação, que excluiu da amostra os três estudos que apresentavam maior diferença de melhora da dor no tratamento com hilano G-F 20 e com AHBPM.1

Após essa nova avaliação, ainda houve superioridade, com significância estatística, do hilano G-F 20 em relação aos AHBPM (p=0,03) nesse período.1

Reações adversas


Para comparar o número de reações adversas entre os tratamentos, seis estudos foram incluídos na análise. Após a avaliação dos resultados, os estudos mostraram homogeneidade, e não se constatou diferença estatística entre o número de reações adversas com hilano G-F 20 e o número de reações adversas com AHBPM (p=0,10).1

As injeções intra-articulares de AH têm sido utilizadas para diminuir os sintomas da OA de joelho e mostram potencial para postergar a realização de artroplastia.20,21

Um estudo recente que avaliou a relação custo-benefício de diversos ácidos hialurônicos intra-articulares no tratamento da OA de joelho (Synvisc®) concluiu que todos os tipos de terapia se mostraram custo-efetivos não apenas em relação à ausência de tratamento como também em comparação ao tratamento convencional.22

Essa metanálise se baseou em uma pesquisa extensa da literatura, sem limitações de idioma, e na avaliação da qualidade dos dados apresentados. No entanto, houve heterogeneidade da qualidade dos estudos incluídos, o que ocorre na maioria dos casos. O resultado dessa metanálise demonstra que o hilano G-F 20 foi mais efetivo que os AHBPM na redução da dor, no período de dois a três meses após a infiltração articular, mesmo com a exclusão dos três estudos que demonstraram sua superioridade em relação aos AHBPM.1,13

Além disso, o presente estudo mostra que não houve diferença entre ambos os tratamentos em relação ao desenvolvimento de reações adversas após a infiltração articular de AH, ao contrário do relatado na metanálise publicada em 2007.1,13

Assim como novos estudos, são necessárias novas comparações entre diversos AH de diferentes pesos moleculares para determinar se um produto específico é superior aos outros produtos. Na atualidade, o hilano G-F 20 é o AH que contou com o maior número de estudos publicados, que incluíram diversos tipos de comparação de resultados, o que demonstrou sua segurança e eficácia.8,23-30

Conclusão


De acordo com o resultado dessa metanálise, o AH de alto peso molecular hilano G-F 20 demonstrou efeito superior na redução da dor em pacientes com OA, em comparação aos AHBPM, no período de dois a três meses após a injeção intra-articular.1

Além disso, não houve evidências de aumento do número de reações adversas após a injeção intra-articular de hilano G-F 20 em comparação aos AHBPM.1