O sono normal é dividido em dois estágios fisiológicos distintos que se alternam ao longo da noite, formando os ciclos de sono REM (do inglês, rapid eye movement) e não REM.1-3 Em uma noite normal, com cerca de 8 horas de sono, a distribuição desses estágios mostra maior predomínio de sono de ondas lentas na primeira metade da noite, com presença de sono REM na segunda metade do sono, como mostra a figura 1.3 A latência normal para o início do sono é de menos de 30 minutos, enquanto a latência normal para o início do sono REM é de 70 a 120 minutos após o início do sono.3

Principais características dos estágios do sono1,2

 

Estágio 1 (sono REM)

  • Atonia muscular
  • Movimentos oculares rápidos
  • Dessincronização do eletroencefalograma
  • Ocorrência frequente de sonhos

 

Estágio 2 (sono NÃO REM)

  • Diferentes fases de profundidade e eletroencefalograma sincronizado com elementos distintos

 

O sono não REM é subdividido em três estágios: N1, N2 e N3. Os estágios N1-N3 representam progressivamente a profundidade do sono, com um limiar de excitação mais alto.3 O estágio N3 também é conhecido como sono profundo ou sono de ondas lentas.2,3

 

Fatores que interferem na qualidade do sono

Um dos fatores que modifica a arquitetura do sono é a idade.4 No recém-nascido, o sono é mais fragmentado e ao longo do primeiro ano de vida vai se consolidando.2 Ao contrário do que ocorre no indivíduo adulto, o sono se inicia pela fase REM e os ciclos são mais curtos (50-60 minutos).2 O sono profundo (N3) é mais prevalente na infância, vai se reduzindo a partir da adolescência, e os idosos têm menores proporções desse estágio e maiores de sono superficial (estágio N1).2,4

 

A maioria dos antidepressivos e antipsicóticos suprime o sono REM, aumentando a latência e reduzindo o tempo de sono nessa fase, enquanto os benzodiazepínicos diminuem a porcentagem de sono de ondas lentas.2,5Sob a ação desses fármacos, o sono é diferente do natural, e não se conhece o real impacto dessas alterações sobre a saúde, principalmente em relação às funções cognitivas.5,6

 

Condições que modificam a arquitetura do sono:2,4

  • Idade
  • Alterações de ritmos circadianos
  • Temperatura
  • Uso de drogas e medicamentos
  • Doenças do sono, como narcolepsia e síndrome da apneia do sono

 

Como preservar a arquitetura do sono

Os estágios do sono podem ser preservados com a utilização de terapias não farmacológicas (como terapia cognitivo-comportamental) associadas ao uso de medicamentos que atuam em substratos biológicos envolvidos no processo de sono-vigília.6-8 Inicialmente, os tratamentos eram direcionados a alvos gabaérgicos, como os barbitúricos e os benzodiazepínicos.6-8No entanto, com o passar do tempo, foi possível observar problemas relacionados com a tolerância, dependência e outros riscos de uso em longo prazo, levando ao surgimento de fármacos com alvo mais seletivo, que mantivessem a eficácia sem os riscos associados.6,7 Surgiram, então, os sedativos hipnóticos não benzodiazepínicos, também conhecidos como drogas Z, que associam o efeito sedativo-hipnótico com maior segurança em termos de tolerância e dependência.6-10

 

Hipnótico não benzodiazepínico de liberação prolongada (CR) se refere ao fármaco disponibilizado em um comprimido de duas camadas, com dosagens de 6,25 e 12,5 mg, que permite uma liberação bifásica do seu conteúdo. Na primeira fase de liberação, são disponibilizados 60% do fármaco de forma rápida, com Tmáx igual ao de liberação imediata (45-60 minutos), e o restante é liberado lentamente durante o sono, permitindo que a concentração sérica permaneça elevada por mais de seis horas.10-16

Hipnótico não benzodiazepínico de liberação prolongada (CR) preserva a arquitetura do sono:10-16

  • Reduz o tempo de indução do sono
  • Melhora a manutenção do sono
  • Melhora a duração do sono
  • Reduz o número de despertares noturnos
  • Não tem efeitos residuais no dia seguinte

 

Considerações finais

Diversos estudos têm demonstrado que a privação de sono, mesmo que parcial, afeta as funções cognitivas, com grande impacto sobre a memória, as funções executivas e o humor.17-19 Com base no conhecimento atual, podemos concluir que o tratamento adequado dos transtornos do sono e o respeito à sua arquitetura natural poderiam melhorar a qualidade do sono e prevenir problemas cognitivos.2,17,18 Nesse sentido, hipnótico não benzodiazepínico de liberação prolongada (CR) mostrou eficácia e tolerabilidade em inúmeros estudos, fazendo parte do arsenal terapêutico para a preservação da arquitetura do sono.10-16