O hipotireoidismo representa a doença endócrina mais frequente no mundo ocidental, com prevalência de cerca de 4%-5% na população geral e incidência anual de 3,5/1.000 em mulheres e de 0,6/1.000 em homens (proporção homem/mulher de 1:5).1-3 O miocárdio e o endotélio vascular apresentam receptores do hormônio da tireoide, e, portanto, alterações desses hormônios podem modular a atividade do coração.2 Clinicamente, tanto o excesso de hormônio tireoidiano como a deficiência podem induzir ou agravar as doenças cardiovasculares, incluindo-se arritmias atriais e ventriculares, doença aterosclerótica e modificação de importantes fatores de risco, como dislipidemia e alterações da pressão arterial, contribuindo assim, ao menos em tese, para maior risco de morbidade e mortalidade prematura.3 Dados de estudos observacionais sugerem que essas alterações podem estar presentes mesmo quando as alterações da função da tireoide são subclínicas (tabela 1).3 A figura 1 apresenta de maneira facilitada a interpretação dos exames de tireoide e sua correlação com alteração clínica.
 

Hipotireoidismo e alterações lipídicas


Os hormônios da tireoide estão envolvidos no metabolismo lipídico,4 com clara correlação entre hipotireoidismo manifesto e presença de dislipidemia, que pode estar presente em até cerca de 90% dos pacientes.5 Em geral, a alteração é causada por menor expressão dos receptores de LDL-C, o que reduz o clearance dessas moléculas da circulação, e também pela redução de atividade enzimática na degradação do colesterol.5 Consequentemente, a correção do hipotireoidismo, ainda que subclínico, pode ter efeito benéfico no perfil lipídico. Em um estudo randomizado e duplo-cego com 100 pacientes com hipotireoidismo subclínico (TSH médio de 6,6 mUI/L), sem doença vascular nem tireoidiana tratada previamente, avaliou-se o efeito da reposição de L-tiroxina por 12 semanas no colesterol total (CT) e na função endotelial, avaliada pela vasodilatação mediada por fluxo da artéria braquial.6 O tratamento reduziu o CT médio de 231,6 para 220 mg/dL (p<0,001) e o LDL-C de 142,9 para 131,3 mg/dL (p<0,05), com melhora significativa da função endotelial.6 A análise multivariada mostrou que o aumento do nível sérico de T4 livre foi a variável que melhor se associou com a redução do colesterol e a melhora da função endotelial.6

 

Hipotireoidismo e risco cardiovascular

O papel do hipotireoidismo como fator de risco independente de eventos cardiovasculares ainda é motivo de estudos conflitantes,7 bem como é conflitante a questão sobre se os adultos com hipotireoidismo e doença cardiovascular preexistente podem estar particularmente expostos a maior risco cardiovascular.8 Uma metanálise de 55 estudos de coorte, envolvendo 1.898.314 pacientes e publicada em 2017, avaliou se o hipotireoidismo, manifesto ou subclínico, está associado com maior risco cardiovascular em indivíduos sem doença cardiovascular manifesta, mas também naqueles com doença já estabelecida.7 Nessa metanálise, os pacientes com hipotireoidismo, em comparação àqueles com eutireoidismo, apresentaram risco 13% maior de eventos isquêmicos cardíacos (IC de 95%: 1,01-1,26) e risco 96% maior de morte cardíaca (RR: 1,96; IC de 95%: 1,38-2,80).7 Além disso, os pacientes cardíacos com hipotireoidismo, em comparação àqueles com eutireoidismo, apresentaram risco 2,22 vezes maior de morte cardíaca.7

O papel do hipotireoidismo como fator de risco independente de eventos cardiovasculares ainda é motivo de estudos conflitantes,7 bem como é conflitante a questão sobre se os adultos com hipotireoidismo e doença cardiovascular preexistente podem estar particularmente expostos a maior risco cardiovascular.8

Portanto, os dados de estudos clínicos corroboram a hipótese de que o hipotireoidismo está associado não só a alterações metabólicas como também ao aumento do risco cardiovascular. Embora estudos clínicos sugiram que tratar os grupos de maior risco de doença cardiovascular possa ser benéfico, carecemos até o momento de grandes estudos clínicos randomizados que tenham avaliado se a reposição de L-tiroxina é capaz de reduzir o risco cardiovascular, em especial naqueles com doença cardiovascular estabelecida.9