O consumo adequado dos alimentos, do ponto de vista quantitativo e qualitativo, é fundamental para o desenvolvimento e crescimento das crianças, estando associado a desfechos de saúde na infância e na vida adulta, como desnutrição, anemia, diabetes, obesidade e doenças alérgicas.1,2 Já para as famílias, é um momento de reestruturação dos hábitos alimentares, uma vez que os hábitos alimentares das crianças são formados principalmente nos 2 primeiros anos de vida e, durante esse período, são diretamente influenciados pelas escolhas dos pais e cuidadores e pelas estratégias de introdução alimentar adotas por eles.4

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a partir dos 12 meses de vida, a maioria das crianças está fisiologicamente preparada para consumir os mesmos alimentos que são consumidos pela família, nas mesmas consistências.1,4 Por essa razão, a atitude dos pais e cuidadores, no momento da alimentação, e as escolhas alimentares da família são de extrema relevância para favorecer uma alimentação variada e hábitos saudáveis, além de servirem como exemplo para a criança.1,3,5

O estabelecimento de uma alimentação responsiva é fundamental para estimular um comportamento alimentar adequado.3,5 Nesse tipo de alimentação, as interações entre a criança e o cuidador, durante as refeições, são baseadas nos sinais de fome e saciedade da criança e são adequadas à sua idade.3,5 Além disso, a oferta de alimentos é feita de forma lenta e paciente e a criança é constantemente incentivada a se alimentar com as próprias mãos, favorecendo sua autonomia e capacidade de autorregulação.3,5

Em relação à variedade, uma dieta diversa é importante para promover preferências alimentares saudáveis e favorecer o crescimento e desenvolvimento adequado.2 Além disso, a progressão para a alimentação da família é um dos principais fatores que desencadeiam as alterações na microbiota intestinal.6 O aumento do consumo de alimentos fontes de proteína e fibra, por exemplo, pode aumentar a concentração de bactérias como Lachnospiraceae e reduzir a concentração de Bifidobacteriaceae, além de representar novas fontes de energia para a microbiota, oferecendo vantagens seletivas para microorganismos específicos se estabelecerem no intestino.6 Por essa razão, a alimentação deve ser variada e baseada em legumes, frutas, verduras, proteínas vegetais e proteínas animais.

A adoção de uma dieta diversificada deve ser estimulada desde o início da introdução alimentar, aos 6 meses, mesmo com aqueles alimentos de maior potencial alergênico, como ovo, peixe e amendoim, pois a introdução a partir dessa idade está associada ao menor risco de desenvolvimento de desfechos alérgicos.1 As únicas exceções serão o leite de vaca e o mel, que podem ser introduzidos na alimentação após os 12 meses, junto com a alimentação usual da família.1 Antes desse período, os esporos do Clostridium botulinum presentes no mel são capazes de produzir toxinas na luz intestinal, podendo causar botulismo. Já o leite de vaca é uma bebida pobre em ferro e zinco, que pode aumentar o risco de micro hemorragias intestinais, além de estar associado ao rápido ganho de peso, possível desenvolvimento de excesso de peso e ser um dos principais responsáveis pela alta incidência de anemia ferropriva em menores de 2 anos no Brasil.1,7
Além dos cuidados com a forma de conduzir introdução alimentar e com as escolhas e hábitos alimentares da família, a atenção à possível necessidade de suplementação de micronutrientes é essencial. Durante a infância, a demanda por nutrientes, como ferro, aumenta consideravelmente e, quando insuficiente na dieta, compromete o desenvolvimento da criança.2 Por essa razão, além da dieta variada, nutrientes como ferro, vitamina A, vitamina D e DHA, podem ser suplementados de forma preventiva.2,8