Morcegos como reservatórios de vírus da raiva emergentes e reemergentes


A “caça” aos vírus desencadeada pela pandemia de COVID-19 estimulou a detecção e a caracterização de novos lissavírus, a maioria detectada em hospedeiros quirópteros. Os lissavírus são classificados na família Rhabdoviridae e na ordem Mononegavirales. Dentro do gênero Lyssavirus, existem 17 espécies virais diferentes, classificadas como entidades separadas de acordo com suas sequências genômicas.1,2 Embora a transmissão cruzada entre espécies de lissavírus de morcegos para humanos ou qualquer outra espécie de mamífero seja rara, em comparação com a carga da raiva canina, o interesse por esses vírus de RNA permanece alto, de acordo com a Dra. Wanda Markotter, da Universidade de Pretoria, África do Sul.2 Todos os lissavírus causam raiva clínica, no entanto as estimativas precisas da infecção humana causada por lissavírus são imprecisas, devido aos sistemas de vigilância laboratoriais inadequados, principalmente na África e na Ásia. Como fica claro com a atual pandemia de COVID-19, uma compreensão mais completa da ecologia, imunologia e patobiologia dos morcegos terá um papel cada vez maior no avanço do nosso conhecimento sobre os riscos relacionados às doenças transmitidas por morcegos. A escassez de dados relevantes, no entanto, sobre populações de morcegos, sua distribuição, abundância relativa e as interações esporádicas entre populações de morcegos e outros animais, como carnívoros, demonstra que o papel dos morcegos e a epizootiologia da dinâmica do vírus hospedeiro não são claros.1 É necessário entender os mecanismos intraespecíficos de perpetuação de patógenos virais em populações de morcegos, o potencial zoonótico desses patógenos virais detectados em morcegos, a distribuição regional alterada dos reservatórios, quando impactados por mudanças antropológicas, a fragmentação de habitat e mudanças climáticas, e o risco de eventos de transmissão entre espécies que afetarão a saúde humana e animal.1

Debate – Raiva em animais selvagens: reservatórios silvestres, situação atual e perspectivas de controle


Inicialmente, Amy Gilbert, do Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal do Programa de Serviços à Vida Selvagem dos Estados Unidos, falou sobre a situação na América do Norte e a importância dos morcegos não hematófagos como transmissores da raiva nos Estados Unidos. Apresentou dados, demonstrando a eficácia da vacinação oral em raposas, principalmente no Canadá, e discutiu a raiva silvestre nas outras espécies. Considerou que, nessa região, o desafio é a otimização da imunização oral contra a raiva entre os animais não canídeos, como guaxinim, gambá, mangustos e morcegos. Métodos computacionais para analisar os dados de vigilância auxiliaram a entender a prevalência regional dos vírus da raiva e sua distribuição, assim como o impacto do controle da raiva nas populações de animais silvestres.3 

A Dra. Janine Seetahal, da Universidade das Índias Ocidentais de Trinidad e Tobago, discorreu sobre a situação na América Central e Caribe. Comentou a importância da raiva em animais selvagens que surgiu após o controle da raiva canina na região, sendo os principais reservatórios os mangustos e os morcegos, esses últimos com prevalência provavelmente subestimada em determinadas áreas do Caribe. As estratégias para prevenção e controle da raiva silvestre não podem ser simplesmente extrapoladas de programas para raiva canina devido às diferenças nos fatores específicos inerentes à espécie, por exemplo, as complexidades envolvidas na administração de esquemas de vacinação antirrábica em morcegos. A raiva é endêmica em 10 países e territórios caribenhos, e os principais reservatórios enzoóticos são o cão, o mangusto e o morcego.4 A infecção sustentada de raiva transmitida por cães em áreas como o Haiti, onde existem graves desafios econômicos, apresenta barreiras para a eliminação da doença na região. Para que a raiva seja eliminada nessa área, um apoio externo consistente será necessário.4 Os esforços coordenados para melhorar o controle da raiva no Caribe devem continuar por meio de redes que promovem a comunicação, aumentando a conscientização, desenvolvendo estratégias e compartilhando recursos humanos e materiais entre os países do Caribe.4  

A situação na América do Sul foi o tema da palestra do Dr. Mauro Meske, da Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE). O Dr. Meske demonstrou os resultados de uma análise sobre a dinâmica dos casos de raiva em humanos, animais de estimação (cães e gatos), animais de produção e animais selvagens (especialmente morcegos) na América do Sul durante o período de 2009 a 2018. Os resultados mostraram que o maior impacto da doença em termos de número de casos foi relatado na pecuária, enquanto o número total de casos em animais e humanos diminuiu progressivamente ao longo do período de estudo. A distribuição espacial da raiva na pecuária mostrou dois aglomerados principais, um no noroeste, principalmente Colômbia, e um no sudeste da região, ou seja, no Brasil, além de um terceiro aglomerado menor no Peru.5 (Figura 1)

Figura 1.
Distribuição dos casos de raiva notificados, representados por pontos, durante 10 anos (2009 a 2018), na pecuária e comparação com os casos de raiva notificados em humanos

Figura 01

Adaptada de: Meske M, et al. Trop Med Infect Dis. 2021;6(2):98.5

Os casos de raiva relatados em animais de estimação (cães e gatos) foram 2.740, e 73,5% deles ocorreram na Bolívia (2015), 11,4% no Brasil (313), 9% no Peru (249) e 1,2% na Venezuela (95). 5

Dos 192 casos humanos notificados durante o período de estudo, 70% deles foram transmitidos por morcegos. O número de casos humanos relatados durante o período de estudo foi significativamente associado ao número de casos de raiva relatados em rebanhos, animais de estimação e animais selvagens. O palestrante apresentou também dados bastante interessantes relacionados à importância dos vários ciclos epidemiológicos da raiva nos países da América do Sul (Tabela 1). Pode-se observar que, com exceção da Bolívia e da Venezuela, que apresentam o ciclo terrestre ainda de forma predominante, nos demais países, a raiva transmitida por morcegos (ciclo aéreo) assume um papel determinante na epidemiologia da doença.5   

Tabela 1. Número de casos humanos notificados durante o período de estudo e principal fonte de infecção nos casos notificados por país
Adaptada de: Meske M, et al. Trop Med Infect Dis. 2021;6(2):98.5

Apesar da taxa decrescente de notificação de casos, a doença ainda representa um grande problema de saúde pública e animal na América do Sul, e novas estratégias para compilar informações sistemáticas, para o networking e para a educação são necessárias, bem como a capacitação e treinamento da equipe veterinária.5

Ao final, a Dra. Florence Cliquet, da Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Ambiente e do Trabalho da França, falou sobre os dados da Europa e sobre a importância de novas espécies animais consideradas como novos reservatórios da raiva na Europa e que foram incluídas no sistema de vigilância. Atualmente, vários países europeus se tornaram livres da raiva terrestre, mas a raiva continua presente em outros países. O risco europeu de raiva ocorre em situações epidemiológicas como importação ilegal de animais, viagens para regiões endêmicas, diferenças nos programas de vacinação canina e raiva em animais selvagens. Poucos países do Leste Europeu e países que fazem fronteira com a Europa ainda estão tentando controlar a doença, representando um risco para os países com vida selvagem sem raiva. Por esse motivo, os programas europeus de financiamento da vacinação oral continuam a ser uma estratégia necessária, visto que constituem a base do controle da raiva na vida selvagem.6 A prevenção da raiva é baseada em três pilares: melhorar a educação e a conscientização pública e promover acesso à vacinação em massa para cães e maior acesso a medicamentos e vacinas para o tratamento.6

Epidemiologia da raiva em animais selvagens


O Dr. Ruben Bascope Quispe, do Ministério da Saúde do Peru, falou sobre o jupará (Potos flavus), um reservatório emergente do vírus da raiva em Cusco, no Peru. Em 2021, houve um surto de raiva em juparás infectados com o vírus da raiva. Devido ao grande número de acidentes com animais selvagens nessa região, 87 pessoas receberam vacinas pré-exposição e quatro receberam imunoglobulina. Esses animais estão sendo considerados novos reservatórios da raiva no Peru e responsáveis por agressões importantes aos humanos. Após esse surto, as autoridades governamentais melhoraram o sistema de vigilância nas áreas envolvidas.7

A ecologia de Desmodus rotundus sob mudança climática foi o tema abordado pela Dra. Paige Van De Vuurst, do Instituto Politécnico e da Universidade Estadual da Virgínia, Estados Unidos. A pesquisadora comentou que o aumento da concentração de gases como metano e gás carbônico aumentam a temperatura da superfície da Terra e consequentemente essas alterações têm impacto nos sistemas biológicos, no ciclo de vida e na propagação de muitos patógenos. Dessa forma, estudaram o quanto as variações climáticas anuais como temperatura, evaporação e cobertura de nuvens influenciam a ocorrência do Desmodus rotundus. Para isso, estudaram de forma retrospectiva os fatores climáticos e a distribuição dos morcegos durante os últimos 100 anos. Verificaram que a distribuição dos morcegos Desmodus rotundus está diretamente associada à temperatura, e os resultados mostraram uma tendência de expansão dessa espécie, decorrente das alterações climáticas, trazendo preocupações com relação à disseminação do Desmodus rotundus, encontrado somente na América do Sul e Central até o México, para a América do Norte, especialmente nos estados no Sul dos Estados Unidos.8

Na apresentação oral seguinte, a Dra. Amy Davis apresentou um sistema para gestão da raiva com base em dados. Esse sistema aumentou a coleta de amostras e a cobertura espacial na Vigilância Avançada da Raiva, mas de forma muito relevante, demonstrou que amostras obtidas de animais mortos, não atropelados, aumentaram a positividade obtida pelo sistema de vigilância anterior caracterizando sua importância para a vigilância da raiva.9 

Em seguida, as mudanças induzidas pelo abate na dinâmica populacional e no comportamento do movimento em pequenos mangustos indianos foram o tema abordado por Caroline Sauvé, da Universidade de Montreal, no Canadá. A redução intensiva da população, ou seja, 65% em seis dias, resultou em um rápido aumento da atividade do mangusto no local, observada por até 50 dias após a intervenção. Esse aumento de atividade pode ter um impacto potencial na transmissão do vírus da raiva em populações onde ele é endêmico. É necessário analisar se esse fato pode aumentar o número de acidentes com mordidas de mangustos em humanos, com transmissão do vírus da raiva.10

O surto de variante do vírus da raiva do guaxinim em raposas no Condado de Sagadahoc no Maine, EUA, foi o tema da última apresentação dessa seção, por Rene Edgar Condori, do Centers for Disease Control and Prevention em Atlanta, Estados Unidos. Em 2019, houve aumento dos casos de raiva em raposas, que se manteve em 2020. Após análises, concluiu-se que a única variante do vírus da raiva do ciclo terrestre no Maine é a do guaxinim, que apresenta dois grupos principais que acometem raposas, guaxinims (racoons) e gambás (Mephitis sp.). Entretanto, o surto em raposas foi causado por uma variante denominada Maine 1B, levantando questionamentos quanto à ocorrência de spillover e novos casos por essa variante. No entanto, foram diagnosticados somente outros dois casos em abril de 2021. A vigilância contínua de raiva na população de raposas continua para avaliar se o surto foi encerrado ou se a nova variante se mantém persistente na população.11

Debate – Eliminação da variante 1 e da variante 2 da raiva canina: visão do país


A América Latina, com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), instituiu em 1983 o Programa Regional de Eliminação da Raiva Humana causada por cães na América Latina, tendo como meta o ano de 2005.12 Por meio desse programa, houve redução de 90% dos casos de raiva humana e canina causadas pelas variantes 1 e 2 do vírus da raiva.12 No entanto, ainda se observa a persistência da raiva canina e humana por essas variantes em alguns países. O objetivo dessa mesa foi discutir os fatores que mantêm a persistência da raiva canina causada pela variante 1 e 2 e medidas a serem implementadas de forma a atingir o objetivo previsto para 2005. 

Em relação ao Peru, o Dr. José Bustamante, coordenador nacional de zoonoses do Ministério da Saúde do Peru, comentou sobre o ressurgimento da endemia de raiva no sul do Peru, considerando suas implicações na meta de eliminação. O Dr. Bustamante explicou que, no início dos anos 1990, um surto de raiva causou a morte de 30 pessoas. Com esse fato, o Plano de Eliminação da Raiva Humana transmitida por cães foi implementado em 1993 e houve um avanço significativo.13 Por volta de 2010, a raiva canina limitou-se a um foco persistente na fronteira com a Bolívia, ao sul do país. Na região de Puno, há manutenção dos casos de raiva canina, com 400 casos de 1990 a 2021. Em Cusco, houve seis casos em 2019, mas a situação já está sob controle. Esse maior número de casos na região ocorreu devido à migração descontrolada da população com seus animais domésticos, às baixas coberturas de vacinação antirrábica canina, à criação de cães em vias públicas e à baixa condição social e econômica da população associadas também ao fato de a raiva não ser considerada prioridade no país pelas agências governamentais, fatores que favorecem a persistência e o risco de disseminação às demais regiões no país. O controle necessita de gestão estratégica e integrada com a comunidade local.13

A Dra. Angela Xiomara Castro Duran, epidemiologista com mestrado em Saúde Pública, falou sobre a eliminação da raiva canina na Colômbia. Em 1981, foram registrados 1.921 casos de raiva canina e 25 casos de raiva humana. Durante o período de 1999 a 2021 foram registrados 43 casos humanos em quatro das cinco regiões da Colômbia envolvendo 11 departamentos do país; cães e gatos foram responsáveis por, respectivamente, 19% e 33%, sendo a doença mais concentrada no departamento de Madalena. Quando considerados os casos de raiva animal, foram diagnosticados 91 casos entre 2004 e 2021, sendo 65,9% em cães (variante 1) e 19,8% em gatos. Houve uma grande redução dos casos de raiva humana e canina nos últimos anos. Em 2021, foram registrados dois casos de raiva canina, enquanto os últimos dois casos de raiva humana ocorreram em 2007. Não houve relato de casos humanos nos últimos 14 anos. Segundo a Dra. Angela, na Colômbia, há uma gestão integrada dedicada à eliminação da raiva no país. Essa gestão inclui vigilância e inteligência epidemiológica, governabilidade e gestão do conhecimento, no entanto existem vários pontos importantes para a eliminação da raiva pela variante 1 e 2 no país.

A eliminação da raiva canina na Argentina foi abordada por Dr. Emilio Faro, da Coordenação de Zoonoses do Ministério da Saúde da Argentina. Segundo o Dr. Faro, o país ainda apresenta casos de raiva canina pela variante 1 e variante 2, no entanto, sem relatos de casos humanos por essa variante desde 2008. Há relatos de casos humanos esporádicos na Argentina, mas o último ocorreu em Buenos Aires em 2021, por um acidente com um gato pela variante 4. Entre as ações do Plano Nacional de Prevenção e Eliminação da raiva humana, estão a vacinação e a castração gratuita em massa de cães e gatos, a atenção médica e a profilaxia antirrábica para pessoas expostas ao vírus, além da divulgação de mensagens sobre a prevenção e o controle da raiva para a população.14

Mesa-redonda: Raiva canina, prevenção e questões importantes 


A partir de julho de 2021, após o aumento das tentativas de importação de cães inelegíveis durante a pandemia COVID-19, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) suspenderam temporariamente a entrada de cães nos Estados Unidos de países considerados de alto risco para raiva canina. Essa suspensão afetou mais de 110 países, incluindo vários países da América do Sul e Central. Os Estados Unidos eliminaram a raiva canina em 2007, no entanto, existe um elevado número de animais que entram nos Estados Unidos provenientes de países considerados de risco.15 Nos últimos anos, os Estados Unidos registraram o ingresso de cães positivos para raiva trazidos por sociedades protetoras dos animais de países endêmicos para raiva canina.15 Dessa forma, essa mesa teve o objetivo de discutir os motivos do CDC, a conduta utilizada pelo Canadá e a posição das sociedades protetoras dos animais a essa proibição. 

Inicialmente, o Dr. Marco Antonio Vigilato fez uma apresentação da diminuição de casos de raiva canina na América Latina, dos esforços estabelecidos pelos países que ainda apresentam casos para o controle animal da doença. Paralelamente, demonstraram-se os efeitos da globalização que facilitou, por meio do transporte aéreo e marítimo, tanto as relações comerciais como o turismo, favorecendo a entrada de pessoas, mas ao mesmo tempo de eventuais agentes infecciosos. 

De acordo com o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), existe um elevado número de atestados de vacinação falsos, incompletos ou sem informações não somente contra a raiva, mas também outras doenças infecciosas. A entrada de animais positivos com raiva trouxe um custo econômico elevado aos EUA por tratamento pós-expositivo de pessoas e, dessa forma, resolveram temporariamente proibir a entrada até novas definições. 16

Por outro lado, o Canadá, apesar de poder registrar a entrada de grande número de cães, registrou, em julho de 2021, o primeiro caso de um cão importado do Irã, resultando em investigação epidemiológica e profilaxia pós-expositiva, desencadeando uma investigação envolvendo nove unidades de saúde pública e resultando em 14 indivíduos recebendo profilaxia pós-exposição à raiva.17 

Em resposta à suspensão de importação do CDC, a Anime Weekend Atlanta (AWA) formou e representa uma coalizão de aproximadamente 90 instituições beneficentes de resgate de animais. Nossa coalizão deseja envolver respeitosamente o CDC, o U.S. Department of Agriculture (USDA) e o Customs and Border Protection (CBP) para lidar com o transporte, a documentação e as ameaças da raiva canina, sem fechar a passagem internacional de resgate de cães, que representa uma válvula de segurança para animais e comunidades em todo o mundo.15