1) É fato ou mito que problemas de saúde mental podem ser causados por doenças na tireoide?

 

É fato que os hormônios tireoidianos podem afetar o humor, uma vez que receptores desses hormônios são amplamente expressos em regiões cerebrais que regulam o humor e a cognição.1 Geralmente, pacientes com hipotireoidismo apresentam sintomas em comum com a depressão, enquanto pacientes com hipertireoidismo apresentam outros tipos de sintomas: 1-3


Uma meta-análise investigou a associação entre hipotireoidismo e depressão, incluindo 25 estudos e totalizando 348.014 participantes. Nela, foi observado uma associação moderada entre hipotireoidismo e depressão, especialmente em mulheres. Apesar dos autores considerarem que a associação observada não é forte, ela é mais evidente para os casos de hipotireoidismo clínico do que para os casos subclínicos, com odds ratio para desenvolver depressão de 1,8 para pessoas com diagnóstico de hipotireoidismo e de 1,1 para pessoas com hipotireoidismo subclínico. Também foram avaliadas pessoas sem diagnóstico de hipotireoidismo, mas que tinham anticorpos antitireoidianos detectáveis e, nestes casos, apenas a presença da autoimunidade não teve associação estatisticamente significativa com depressão.4

 

Com esses dados, os autores concluíram que a depressão não deve ser descartada como comorbidade em pacientes com hipotireoidismo, apesar da associação ser menor do que se assumia previamente.4

 

Com a terapia de reposição com levotiroxina (o tratamento de escolha), a maioria dos sinais e sintomas físicos e psicológicos é resolvida em grande parte dos pacientes com hipotireoidismo. No entanto, alguns pacientes ainda apresentam queixas persistentes, apesar do tratamento adequado.1,3 Uma das explicações é que a disfunção da tireoide é apenas uma das causas dos sintomas mentais que ocorrem na população em geral.1


2) É fato ou mito que problemas na tireoide causam obesidade? (E tomar remédio para tireoide emagrece?)

 

É sabido que os hormônios tireoidianos:5

  • aumentam a taxa metabólica basal;
  • dependendo do estado metabólico, podem induzir a lipólise (degradação dos lipídios) ou a síntese de lipídios;
  • estimulam o metabolismo dos carboidratos;
  • estimulam o anabolismo das proteínas.

 

Assim, há uma relação entre os hormônios da tireoide e a composição corporal, sendo que a disfunção dessa glândula está associada a alterações no peso e composição corporal, temperatura e gasto energético.6

 

O hipotireoidismo está associado a:6

  • diminuição da termogênese;
  • diminuição da taxa metabólica;
  • índice de massa corporal mais alto;
  • maior prevalência de obesidade.

 

Porém, estudos mostram que o tratamento com reposição de T4 apresenta, no máximo, um efeito modesto na indução da perda de peso em pacientes com hipotireoidismo evidente. Além disso, para pacientes com hipotireoidismo subclínico e pacientes obesos com função normal da tireoide não há evidências que suportem o uso do medicamento.6

 

Outro problema possivelmente relacionado à reposição de hormônios tireoidianos (T3 ou T4) em indivíduos sem diagnóstico de doença tireoidiana é o hipertireoidismo subclínico e a perda de massa muscular, resultando em efeitos prejudiciais. Assim, tal terapia deve ser desencorajada em pacientes eutireoidianos.7

3) É fato ou mito que o cansaço crônico pode ser causado por hipotireoidismo?

 

No hipotireoidismo, a fadiga é o sintoma mais comumente observado, sendo um dos motivos que levam à investigação da função tireoidiana. Esse sintoma pode levar a dificuldades na realização das atividades diárias, já que o paciente pode desenvolver uma diminuição geral na performance e alterações no desempenho físico, humor, além da constipação.8 E em comparação com a população geral, os pacientes com hipotireoidismo relatam mais sintomas relacionados à fadiga.9

 

No entanto, essa queixa pode estar presente mesmo nos pacientes em terapia de reposição de levotiroxina e com níveis hormonais compatíveis com eutireoidismo por um longo período.9

 

Assim, a conscientização da disfunção psicológica e física nos pacientes em terapia com hormônio tireoidiano é importante, uma vez que muitos pacientes com hipotireoidismo apresentam fadiga persistente e sintomas relacionados à fadiga, bem como desempenho ruim em vários domínios do funcionamento neurocognitivo, apesar da terapia de reposição aparentemente adequada. Dessa forma, durante o acompanhamento, é relevante avaliar como está o bem-estar destes pacientes.9

 

Por outro lado, embora o hipotireoidismo seja frequentemente avaliado como uma das causas da fadiga, na ausência de um sintoma adicional, é menos provável que o paciente tenha essa condição. A probabilidade aumenta com o número de sintomas associados e com a progressão dos sintomas ao longo do tempo. Assim, ao avaliar pacientes com fadiga, é importante considerar sintomas adicionais, como:10

  • engrossamento da voz,
  • rouquidão,
  • diminuição da sudorese,
  • constipação,
  • perda de cabelo,
  • raciocínio lento,
  • cãibras musculares,
  • intolerância ao frio,
  • ganho de peso.

 

Quando falamos sobre a síndrome da fadiga crônica, vários sintomas se assemelham aos do hipotireoidismo, mas não são acompanhados pelo aumento nos níveis de TSH. Essa síndrome, também conhecida como encefalomielite miálgica, é uma doença heterogênea complexa, caracterizada por fadiga incapacitante, comprometimento cognitivo, sono interrompido e dores esqueléticas e musculares concomitantes, com duração superior a 6 meses e sem melhora com o repouso.11