Epidemiologia


A Influenza  (ou gripe), está entre as infecções respiratórias mais frequentes em todo o planeta e, desde os primórdios da humanidade, é causa de surtos e pandemias. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), são notificados todos os anos cerca de 1 bilhão de casos da doença, dos quais 3 a 5 milhões são graves — incluindo 290.000 a 650.000 mortes. A estimativa é a de que entre 5% e 10% da população global seja infectada anualmente.1

Os vírus da influenza são classificados como A e B e cada um deles possui subtipos. Os subtipos A que mais frequentemente infectam os humanos são os A(H1N1) e A(H3N2), e os subtipos B das linhagens Victoria e Yamagata. Apresentam altas taxas de mutações (maiores ou menores), o que proporciona o aparecimento de novas variantes virais, para as quais a população não apresenta imunidade.1

No Brasil, entre 2009 e 2011, os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) hospitalizados confirmados para influenza A/H1N1 2009 acometeram faixas etárias mais jovens, com maior incidência nos menores de dois anos de idade. Em relação às mulheres em idade fértil, as gestantes foram 17% dos casos em 2009, 35,6% em 2010 e 36,7% em 2011.2

Até a semana epidemiológica (SE) 52 de 2016, das amostras de síndrome gripal (SG) processadas com resultado positivo para vírus respiratórios, 72,2% foram positivas para influenza. Dentre elas, 62,5% foram decorrentes da cepa A(H1N1)pdm09, 30,3% das cepas B, 5,5% da cepa A não subtipada e 1,7% da cepa A(H3N2). Dentre as amostras processadas de casos de SRAG, 27,5% (12.174/44.252) foram confirmadas para influenza e 11,0% para outros vírus respiratórios. Em relação às amostras coletadas pelas unidades sentinelas de SRAG em unidade de tratamento intensivo (UTI), 55,5% foram positivas para influenza. Também foram notificados 7.171 óbitos por SRAG, o que correspondeu a 13,2% (7.171/54.224) do total de casos, desses 31,0% foram confirmados para influenza. Já em 2019, até SE 52, das amostras classificadas como SRAG, 17,6% (5.800/32.963) e 22,0% (1.122/5.089) dos óbitos foram confirmados para influenza. O coeficiente de mortalidade por influenza no Brasil está em 0,5/100.000 habitantes.3,4

Com o início da pandemia de COVID-19, houve, a partir da SE 13 de 2020, uma redução na circulação dos vírus da influenza. Entre aqueles que circularam nas primeiras semanas, houve predomínio da influenza A (H1N1) pdm09 e da influenza B. As semanas seguintes, atipicamente, foram caracterizadas pela quase total ausência de registros. O afastamento social imposto pela situação pandêmica reduziu a transmissibilidade também dos vírus responsáveis pela gripe.1

Transmissão


A influenza dissemina-se rapidamente, tem habilidade de causar epidemias anuais, sendo responsável por elevada morbimortalidade em grupos de maior vulnerabilidade.5

Os vírus da influenza são transmitidos de pessoa para pessoa principalmente através da tosse e espirros de pessoas infectadas, mas também pelo contato com superfícies contaminadas. O período de incubação da gripe é de 1 a 4 dias, com média de 2 dias. Adultos e crianças transmitem o vírus desde um dia antes do aparecimento dos sintomas e até aproximadamente 5 a 7 dias após o início dos mesmos. As crianças pequenas podem transmitir o vírus por um período mais longo de até 6 dias antes do início dos sintomas e até 10 dias após. Pessoas imunodeprimidas podem eliminar o vírus por até 14 dias.6

Na comunidade, os casos de gripe muitas vezes aparecem primeiro entre as crianças em idade escolar. As taxas de ataque são geralmente mais altas neste grupo e mais baixas entre os idosos. Sazonalidades com alta circulação do vírus da influenza, como por exemplo, em 2009 e 2016 no Brasil, têm sido associadas a elevadas taxas de incidência de doenças respiratórias agudas, absenteísmo escolar e no trabalho, consultas médicas, internações e óbitos. O grande número de consultas médicas geradas pela gripe pode sobrecarregar os sistemas de atendimento médico, exigindo hospitais e serviços de emergência para desviar os pacientes.7,8

A doença na criança


A influenza B apresenta quadro clínico e evolução semelhantes à do tipo A e é comum em crianças. Durante as epidemias sazonais, um grande número de infecções pelo vírus da influenza pode ocorrer em todas as faixas etárias. Na maioria das vezes, a gripe é uma doença autolimitada, mas o risco de complicações secundárias graves existe e é mais elevado entre pessoas de idades extremas e naquelas com certas condições subjacentes.9,10 Nos EUA, durante a pandemia causada pelo A (H1N1) pandêmico, uma ou mais comorbidades estavam presentes em 50-80% dos adultos e crianças que necessitaram de hospitalização.11

As complicações graves mais comuns incluem a exacerbação de doenças pulmonares crônicas e cardiopulmonares subjacentes, como doença pulmonar obstrutiva crônica, asma e insuficiência cardíaca congestiva, bem como o desenvolvimento de pneumonia bacteriana geralmente. Condições neurológicas e/ou neuromusculares subjacentes também são fatores de risco para complicações da influenza, incluindo a morte.12,13,14 A síndrome de Reye associada à gripe tem sido relatada principalmente em crianças com infecção pelo vírus da gripe B, mas também tem sido observada em crianças infectadas por influenza A.15 Nos Estados Unidos, durante as recentes epidemias sazonais de gripe e a pandemia de 2009, o Staphylococcus aureus e o Estreptococos foram os co-patógenos mais comumente identificados entre as crianças que morrem por complicações da gripe. Pneumonia viral primária ocorre com pouca frequência, mas muitas vezes é fatal.16

Impacto na criança


O impacto da influenza em crianças abaixo de cinco anos é muito maior do que se imagina. Por não encontrarem sintomas clássicos como tosse acrescida de febre e coriza, muitos médicos não detectam a infecção pelo vírus Influenza, causador da gripe, o que vem colaborando para a subnotificação da doença nesta faixa etária. Nos EUA, a taxa média anual de internação associada à influenza em crianças foi de 0,9 por 1000. A carga estimada de consultas ambulatoriais associadas à gripe foi de 50 consultas clínicas e 6 consultas de emergência por 1000 crianças durante a temporada 2002-2003 e 95 consultas clínicas e 27 consultas de emergência por 1000 crianças durante a temporada 2003-2004. Poucas crianças que tiveram influenza confirmada laboratorialmente receberam um diagnóstico de gripe pelo médico no momento da internação (28%) ou no ambulatório (17%). No estudo conduzido por Katherine Poehling, das 160 crianças internadas com teste positivo para influenza, 49% eram bebês, 31% tinham entre 6 e 23 meses e 20% de dois a cinco anos de idade. Nos casos dos atendimentos ambulatoriais e emergenciais, a proporção se inverteu: as crianças maiores foram as mais atendidas (52%), seguidas da faixa intermediária (40%) e dos bebês (7%).17

A influenza afeta negativamente a saúde e a economia


Durante as sazonalidades da influenza, estima-se que 5% a 20% da população dos EUA é infectada pelo vírus, mas essas taxas podem ser de 20% a 50% em instituições de longa permanência para idosos e de até aproximadamente 50% entre crianças em idade escolar. 18,19

Durante a pandemia de 2009, altas taxas de ataque provocaram o fechamento de escolas em muitas regiões, e sistemas de saúde e escritórios de prestadores relataram volumes de pacientes que coincidiram ou superaram epidemias de gripe sazonal moderada ou grave. Ao contrário da gripe sazonal, muitos dos que tiveram a doença mais grave e que necessitaram de cuidados em unidades de terapia intensiva (UTI) eram crianças ou adultos menores de 65 anos; a duração média da internação na UTI foi de 7 dias em um estudo. 20 

Importância da vacinação de crianças


Crianças menores de 5 anos são consideradas de risco para complicações. O impacto da influenza é subestimado, limitando-se, no Brasil, aos dados de hospitalizações e óbitos pela doença. Em 2009, durante a pandemia de influenza a taxa de incidência dos casos de SRAG confirmados para influenza em menores de 2 anos foi de 71,9 (em meninos) e de 60,9 (em meninas) por 100.000 habitantes. De acordo com dados do Ministério da Saúde, crianças menores de 6 anos estão entre os grupos com maior taxa de óbito. Em 2016 e 2019, 10,3% (159/1549) e 11,7% (96/820), respectivamente, dos óbitos por influenza ocorreram em menores de 5 anos. 2,3,4

Além disso, de acordo com estudo conduzido por Katherine Poehling, a proporção de atendimentos ambulatoriais e em prontos-socorros de crianças de dois a cinco anos é 250 vezes maior do que o número de internações. Nas outras faixas etárias a proporção é menor: 10 vezes (em bebês até cinco meses) e 100 vezes (em crianças de 6 a 23 meses). 17

A circulação generalizada do vírus da influenza aviária altamente patogênica A(H5N1) entre aves domésticas e selvagens na Eurásia e na África, iniciada em 2003, que já causou mais de 600 casos em humanos, continua a ser motivo de preocupação. A pandemia de 2009, relativamente leve, reforçou a importância dos países se prepararem para outra pandemia de influenza. A administração anual da vacina contra a gripe  sazonal, especialmente para pessoas de alto risco para complicações graves e seus contatos próximos, é o foco dos esforços mundiais atuais para reduzir o impacto desta doença.21