O transplante de medula óssea (TMO) alogênico é, para muitos pacientes com cânceres hematológicos como leucemias e linfomas, a única chance real de remissão da doença. No entanto, a jornada pela vida não se encerra com o sucesso do procedimento. O Brasil é o terceiro maior doador de medula óssea do mundo, mas, para uma parcela significativa dos pacientes1, surge um desafio imunológico complexo e multissistêmico: a Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH). Trata-se de uma "rejeição inversa", onde as células de defesa do doador passam a reconhecer o corpo do receptor como um agente estranho, iniciando um ataque inflamatório e um processo fibrótico que pode comprometer a qualidade de vida e a longevidade do paciente.
Embora a forma aguda da doença ocorra logo após o transplante, a forma crônica pode se manifestar nos meses subsequentes, em alguns casos perdurando por anos, e acomete de maneira importante vários órgãos, como pele, olhos, mucosas, o sistema gastrointestinal e os pulmões.
“Celso Arrais, médico hematologista e professor da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), afirma que a DECH crônica (DECHc) afeta até 50% dos pacientes que passam por transplante de medula óssea alogênico2. "A condição se assemelha a uma doença autoimune. Diferentemente da rejeição comum em transplantes de órgãos sólidos, em que o sistema imune do paciente ataca o órgão recebido, na DECHc o sistema imune transplantado ataca os órgãos do paciente", explica.
Para Rita de Cássia Crivel Giorno, professora de português, a luta contra a mielodisplasia foi apenas o primeiro capítulo de uma história de 20 anos de sobrevivência e adaptação. Na mielodisplasia, a medula óssea não produz células sanguíneas saudáveis em quantidade suficiente. É considerada um tipo de câncer de sangue3. O relato de Rita ilustra os impactos profundos da DECHc. Após o transplante, ela iniciou o que descreve como um processo de convivência forçada com a reação do enxerto. "A DECHc é uma condição crônica que exige monitoramento constante e auto-observação para entender os sinais do corpo."
ENTENDA A DOENÇA DO ENXERTO CONTRA O HOSPEDEIRO (DECH)
DECHc PODE AFETAR9
% dos pacientes
TRATAMENTOS
CASOS LEVES
Corticosteroides ou imunossupressores tópicos.
CASOS MODERADOS A GRAVES
Imunossupressão sistêmica com corticosteroides e outros agentes imunomoduladores.
CASOS REFRATÁRIOS
terapias inovadoras (drogas-alvo) têm demonstrado maior eficiência e menos efeitos colaterais.
IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE:
Permite intervenções terapêuticas mais eficientes, reduzindo a gravidade das complicações e melhorando a qualidade de vida dos pacientes.
COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO
Exames clínicos e laboratoriais, incluindo biópsias.
JORNADA DO PACIENTE COM DECH CRÔNICA10
Descoberta de um câncer que acomete o sangue
Tratamento e indicação de transplante
Após o transplante, aparecem os sintomas de DECH
Com diagnóstico precoce, início do tratamento
No caso de Rita, a doença se manifestou de forma agressiva e multissistêmica. "Fiquei com o corpo coberto por manchas. Tive atrofia muscular e encurtamento de tendões, o que limitava até movimentos simples."
Rita também enfrentou o desconhecimento sobre a DECHc em especialidades fora da hematologia. "Eu me sentia um extraterrestre nos consultórios. Tinha de explicar o que era a doença", diz. Hoje, convivendo com as limitações, ela reforça a importância do acolhimento: "O apoio de redes de familiares e amigos é fundamental para enfrentar uma doença rara e complexa".
"Fiquei com o corpo coberto por manchas. Tive atrofia muscular e encurtamento de tendões, o que limitava até movimentos simples."
A DECHc é uma doença de alta complexidade que exige intervenção precoce, uma vez que impacta a qualidadede vida do paciente e traz risco de morte. A inflamação e a fibrose podem acontecer simultaneamente em múltiplos órgãos, inclusive no pulmão que costuma apresentar em casos mais graves da doença, levantando um alerta imediato4. A mortalidade não relacionada ao retorno do câncer pode chegar a 22% em 5 anos, sendo 38% dessas mortes atribuídas diretamente à DECHc5.
Além do sofrimento físico e emocional, a doença impõe um fardo econômico: pacientes com DECHc têm custo médio anual de internação hospitalar duas vezes maior do que os que não desenvolvem a complicação, além de maior utilização de emergências e UTI6.
No Brasil, essa realidade é agravada por desigualdades geográficas evidenciadas pelo Mapa do Transplante de Medula Óssea, da Associação da Medula Óssea (AMEO). Com cerca de 60 centros transplantadores pelo SUS, a distribuição é desigual: estados como Amazonas, Acre e Tocantins não contam com unidades habilitadas, obrigando pacientes a grandes deslocamentos para estados como São Paulo, que centraliza a maioria dos procedimentos7.
O tratamento DECHc varia conforme a gravidade do caso. O manejo da doença, no entanto, evoluiu significativamente nos últimos anos. Segundo o doutor Arrais, o tratamento de primeira linha se baseia em corticoides, mas cerca de 70% dos pacientes não respondem adequadamente ou tornam-se dependentes da medicação. E o uso prolongado de corticoides traz outros impactos na qualidade de vida do paciente.
Para esses casos, surgem as terapias-alvo modernas, que são tratamentos mais recentes que promovem a imunossupressão seletiva, gerando melhor modulação do sistema imunológico e diminuindo os efeitos nocivos da imunossupressão ampla. Apesar da gravidade da DECHc, essas novas terapias têm se mostrado muito importantes para o controle da doença e melhora na qualidade de vida dos pacientes.
"O grande desafio atual reside na padronização dos protocolos e na facilitação do acesso às novas drogas, tanto no sistema público quanto no privado", afirma Arrais.
A conscientização da sociedade e da classe médica é fundamental para o diagnóstico e intervenção precoces. Desse modo é possível impedir a progressão da doença e danos irreversíveis a longo prazo.
Conteúdo adaptado de publicação originalmente veiculada no Estúdio Folha, em parceria com a Sanofi, em maio de 2026.
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Referências: