No Brasil, 340 mil bebês prematuros nascem todos os anos, o equivalente a 931 por dia ou 6 a cada 10 minutos. Mais de 12% dos nascimentos no país acontecem antes da gestação completar 37 semanas, o dobro do índice de países europeus. Os problemas da prematuridade vão além do baixo peso, um prematuro precisa de cuidados especiais na UTI, o que aumenta em três vezes o risco de morte e sequelas futuras para sua vida adulta.1

Aqui, já contamos histórias de mães que passaram por essa experiência, mas agora o foco vai ser a paternidade. Afinal, por mais que os pais de bebês prematuros não vivenciem o parto, eles também são parte importante nos primeiros dias do bebê.

Wellington Dias dos Santos viveu intensamente a prematuridade. A primeira experiência foi quando nasceu seu primeiro filho. Um prematuro de 24 semanas veio ao mundo, mas morreu com poucas horas de vida. Oito meses depois, chegou a pequena Sophia, um bebê prematuro de 6 meses.

“Com o ocorrido na primeira gestação, o médico disse que minha esposa tem o que é chamado de ‘útero curto’, então foi preciso fazer uma cerclagem. A Sophia veio prematura e chegou a pesar 540 gramas nos primeiros dias, mas com muita fé fomos acompanhando a evolução dela na UTI neonatal”, lembra.

O bebê passou pelo acompanhamento médico e pelo processo de ganho de peso. Como lembra Wellington, tudo foi conquistado um dia de cada vez. “A chegada dela mudou minha vida e, hoje, já não me vejo mais sem ela”, disse.

A pequena Sophia passou 98 dias na UTI neonatal e 2 dias na pediatria. Após 100 dias, ela foi para casa, e hoje o pai se orgulha de falar das travessuras praticadas pela filha, agora com 2 anos e 6 meses.

Wellington segurando sua filha, Sophia.

"Vejo ela fazendo as bagunças dela, pois é muito arteira, e agradeço a Deus, que realmente fez algo maravilhoso na vida dela", contou.

Cerclagem


A cerclagem é uma cirurgia de pequenas dimensões desenvolvida em 1953. A técnica consiste em “costurar” o colo do útero da gestante e é responsável por impedir o nascimento da criança antes da hora.2

Ela deve ser realizada com até 14 semanas de gravidez, principalmente em mulheres portadoras de insuficiência istmo-cervical (colo curto) e gestações gemelares.2

A vinda de Davi


Nem todo pai é pai de sangue, mas ser pai adotivo de um bebê prematuro não é tão comum assim. Isso ocorreu com o Nivaldo Eliezér, que adotou o pequeno Davi, filho biológico da ex-cunhada, que por problemas de saúde não poderia criar o filho assim que ele nascesse.

Nivaldo esteve presente no parto e acompanhou todos os passos de Davi, que veio ao mundo como um bebê prematuro de 29 semanas e ficou 83 dias internado, sendo 30 na UTI neonatal. "A gente teve todo um acompanhamento com psicólogos e assistentes sociais. O nascimento veio com um quadro de pré-eclâmpsia, então foi tudo muito rápido, com risco para os dois", relembra.

Ele disse que a parte mais emocionante foi quando viu o filho pela primeira vez. "Me dá até um nó na garganta, pois é como se fosse meu de sangue. Depois ele ficou na incubadora, na UTI neonatal, e a gente só conseguiu ter contato com ele por volta de um mês e meio de vida. Eu e minha ex-esposa o assumimos de tal forma, que ele rapidamente começou a ganhar peso e ficar melhor", relembra os primeiros desafios.

Após um tempo, Nivaldo pôde, enfim, segurar o filho no colo.

Quando ele foi para casa, Nivaldo conseguiu antecipar as férias para poder cuidar do filho, junto com a então esposa. "Ele é tudo para mim. A gente brinca, dá risada. Mas o cuidado inicial era totalmente delicado, com tudo cronometrado, com muitos detalhes envolvidos", falou.

“Hoje ele tem quase 4 anos. Está forte, saudável e muito bem, graças a Deus", disse ele.
Nivaldo ao lado do filho, agora com 3 anos de idade.

Novembro, o mês da prematuridade


O dia 17 de novembro é o Dia Mundial da Prematuridade, criado para homenagear os prematuros. Durante todo o mês, usa-se a cor roxa para lembrar a causa.

“Em 2021, o tema foi separação zero, porque muitas maternidades, depois que o bebê nasce, levam-no para UTI, não deixam a mãe visitar e controlam os horários. Existe uma lei segundo a qual os pais têm acesso 24 horas na UTI neonatal, mas, por conta da pandemia, o distanciamento e o isolamento acabaram prevalecendo. Porém, o acesso dos pais, seu toque na criança, o contato pele a pele e o bebê ouvir a voz dos pais são muito importantes, colaborando para que os bebês fiquem menos estressados”, explicou a pediatra neonatologista Patrícia Terrivel.
A médica também explica a importância do pai nesse processo, já que muitas vezes as mães também passam por um período de recuperação da cirurgia e não podem acessar a UTI neonatal.

“Mesmo com a mãe presente, não é um período fácil, então é importante ter conhecimento sobre a lei que permite a permanência dos pais por 24 horas na UTI. Em alguns casos, os pais podem entrar por legislações internas, mas eles têm que lutar por seus direitos”, ressaltou.

Para quem passa pela experiência de ter um bebê prematuro, é preciso equilibrar a saúde física e mental para poder cuidar do bebê. Um parto prematuro nunca está nos planos e muitas novidades aparecem durante o processo. “É importante os pais terem o apoio da equipe multidisciplinar do hospital, com acesso a médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos”, diz Patrícia.

Como nos contaram Wellington e Nivaldo, a jornada do pai prematuro não é fácil e pode ser muito desgastante, mas se tudo der certo, o resultado é um amor que não se consegue explicar.

Para saber mais sobre o Novembro Roxo, acesse o site da ONG Prematuridade.com, que organiza eventos em todo o país e promove palestras sobre o tema.