A pandemia de coronavírus tem deixado o Brasil e o mundo em alerta por causa de uma nova doença que tem, infelizmente, causado centenas de milhares de mortes em nossa nação e no mundo. As medidas de prevenção todos já conhecem: distanciamento social, higienização constante das mãos e uso de equipamentos de proteção, como máscaras.1

Acontece que a preocupação com a COVID-19 pode fazer com que a sociedade deixe de proteger crianças contra outras doenças até então controladas. Apesar do Programa Nacional de Imunização (PNI) brasileiro ser uma referência mundial, nossa cobertura vacinal vem caindo significativamente nos últimos anos e se acentuou ainda mais com o surgimento da COVID-19.2

No Brasil, um levantamento realizado pelo IBOPE revelou que 29% dos pais adiaram a vacinação dos filhos após o surgimento da pandemia. Desses, 9% planejam levar os filhos para vacinar somente quando a pandemia acabar. A médica pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), nos contou como a comunidade médica está preocupada com esse cenário.2

“A preocupação é grande, pois a cobertura está muito baixa, como não se via desde a década de 1990. Isso deixa os pais e as crianças suscetíveis ao retorno de várias doenças controladas e até mesmo eliminadas no Brasil, como a poliomielite”, alerta Dra. Isabella. 
Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. Foto: Magic-RM Comunicação

Apesar da existência de um movimento crescente antivacinas, a especialista acredita que essas pessoas não sejam tão relevantes na baixa procura pelos postos de vacinação. 
 
“O principal fator que a gente observa é a falta de percepção do risco das doenças infantis. Todos estão muito preocupados com a COVID-19, que realmente merece toda a atenção, mas não percebem o perigo das outras doenças. Principalmente para as crianças, que não possuem histórico de gravidade com a COVID-19, mas podem ser acometidas por doenças gravíssimas, como a pólio”, explicou.

Confira o calendário de vacinação para prematuros3
Confira o calendário de vacinação para crianças (0<10 anos)4
Confira o calendário de vacinação para adolescentes (10<19 anos)5

 
De fato, a poliomielite é uma preocupação mundial no momento. Segundo a Unicef, décadas de trabalho e vacinação em massa contra a poliomielite podem estar em risco com a pandemia de COVID-19, que levou à interrupção dos serviços essenciais de imunização no mundo todo.6
 
Segundo documento divulgado pela entidade em 2020, mesmo quando a vacina está disponível, muitas pessoas não conseguem acessá-la por falta de transporte, medo da pandemia ou por não enxergarem a importância da vacinação. Esses fatores fizeram a vacinação cair pela metade em muitos países, o que pode favorecer um surto de poliomielite a qualquer momento.6
 
“A população não tem percepção desse risco. Quando se fala em pólio, parece uma teoria muito distante e ninguém se preocupa com essa questão. A vacinação contra a poliomielite acontece como uma rotina na nossa sociedade. Mas, com o medo de sair de casa e a falta de comunicação eficiente, nossa cobertura também cai”, disse a especialista.

Você sabia?


67% dos brasileiros acreditam em informações falsas sobre vacinação.

O achado é parte do estudo As fake news estão nos deixando doentes?, divulgado em 2018 pela Avaaz em parceria com a SBIm, com o objetivo de investigar a associação entre a desinformação e a queda nas coberturas vacinais verificadas nos últimos anos.7

Há, ainda, evidências de que as notícias falsas tenham impactado na decisão de não se vacinar. Entre os que não se vacinaram, 57% relataram pelo menos um motivo considerado desinformação.8

Os mais comuns, nesta ordem, foram: não achei a vacina necessária (31%); medo de ter efeitos colaterais graves após tomar uma vacina (24%); medo de contrair a doença que estava tentando prevenir com a vacina (18%); por causa das notícias, histórias ou alertas que li online (9%); e por causa dos alertas, notícias e histórias de líderes religiosos (4%).8 

Tem problema atrasar a vacina do bebê?


Como vimos, a hesitação é o principal problema na hora de vacinar. Muitos pais estão demorando para levar seus filhos aos postos de vacinação, esperando a questão da pandemia melhorar e acreditando que a vacinação infantil não seja tão urgente.
 
Perguntamos à Dra. Isabella se é possível atrasar a vacinação e se, em casos de vacina de reforço, o intervalo entre as doses pode ser maior (ou prolongado). Segundo ela, isso pode ocorrer, mas não é indicado, pois a cada dia sem imunização aumenta o risco do bebê se infectar.

“As pessoas querem saber se tem problema atrasar a vacina do bebê. Olha, caso os pais atrasem a vacinação, isso é automaticamente prejudicial ao filho. Digo isso porque o atraso é o que mais faz a cobertura vacinal diminuir e isso só ocorre porque as pessoas não possuem noção da gravidade das doenças envolvidas nesse processo. Infelizmente, estamos em um cenário que não se fala disso e a percepção de risco ainda é muito baixa”.
 
A pediatra lembra que, em 2020, foram registrados mais de 8 mil casos de sarampo no Brasil. “Uma doença que estava em crescimento e, quando a população começou a se preocupar, veio a pandemia e parou de se falar a respeito. No entanto, a doença não deixou de existir”, contou.

Apesar de ser extremamente contraindicado atrasar uma dose vacinal, a médica orienta os pais a procurarem o quanto antes o serviço de saúde para colocar a vacinação de seus filhos em dia. “Quando uma dose é atrasada, significa que a criança fica vulnerável até tomar a dose que precisa. No entanto, dose dada nunca é dose perdida. Mesmo com atraso, é preciso dar continuidade”.

Vacinação em domicílio é viável?


Segundo a médica, o sistema público de saúde só disponibiliza esse serviço para pessoas sem capacidade de locomoção e em casos muito específicos, especialmente de idosos. De maneira geral, a vacinação continua a ser oferecida nos pontos do Sistema Único de Saúde, como as Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou pelo Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).
 
“Na rede privada, existe a opção domiciliar, mas para quem não tem acesso a esse serviço, costumo dizer que é importante entender que a COVID-19 não está sozinha. A pandemia representa um risco muito baixo para crianças comparado ao risco das demais doenças”.

“Ficar atento a isso”, continuou ela, “é entender que deixar crianças em atraso com a vacinação significa estar em risco de contrair vírus ou bactérias potencialmente graves e que já foram os principais fatores de mortalidade infantil no Brasil e no mundo”.
 

Você conhece o CRIE?

 
O Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) é constituído de infraestrutura e logística específicas e destinado ao atendimento de indivíduos portadores de quadros clínicos especiais, ou seja, que possuem contraindicação à utilização dos imunobiológicos disponíveis na rede pública, indivíduos imunocompetentes e imunodeprimidos, aqueles que apresentam outras condições de risco e outros grupos especiais.9
 
Os CRIEs atendem de forma personalizada o público que necessita de produtos especiais, de alta tecnologia e alto custo que são adquiridos pelo PNI. Porém, para fazer uso desses imunobiológicos, é necessário apresentar a prescrição com indicação médica (com CID-10) e relatório clínico do caso (em receituário ou outro documento, cópia de resultado de exame que comprove o laudo, se for necessário).10

Nos municípios onde não há CRIE, basta procurar a Secretaria Municipal de Saúde – Programa Municipal.10
 

A importância da comunicação

 
A pediatra Isabella Ballalai encerra nossa conversa chamando a atenção para a comunicação, que sempre foi o forte da política pública vacinal do Brasil, mas que tem, segundo ela, perdido força nos últimos anos.
 
“A primeira coisa que precisa ser feita é o investimento em comunicação. A SBIm tem investido, mas não conseguimos fazer isso sozinhos. O Brasil tinha um histórico de comunicação empática, mas há muito tempo não se vê e, ultimamente, tem se limitado a comunicar uma campanha, chamar as pessoas para se vacinarem, mas não é o suficiente. Se as pessoas não têm a percepção de risco da doença, elas não comparecerão apenas por serem chamadas. Antes, as pessoas entendiam que era importante e se ligavam nisso”, disse.
 
Segundo ela, é preciso massificar essa mensagem e fazê-la chegar a toda população, e o principal meio para isso ainda é a televisão. “Sabemos, por pesquisa, que cerca de 70% da população brasileira ainda tem como fonte de informação a televisão. Essa mensagem precisa chegar a todos ou, então, podemos ter novos surtos de doenças já controladas”.

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