Conhecida também como paralisia infantil, a poliomielite é uma doença infectocontagiosa grave que afeta o sistema nervoso e já causou muita preocupação em pais e mães do Brasil.1 Desde 1990, não há registro de casos de poliomielite no Brasil, fato que levou o país a obter da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) o certificado de erradicação do poliovírus selvagem autóctone do seu território em 1994, juntamente com os demais países das Américas.2

Para manter o país livre da doença, no entanto, é fundamental a cobertura vacinal, mas os números dos últimos anos preocupam especialistas. No dia 24 de outubro, é celebrado o Dia Mundial de Combate à Poliomielite. A data coincide com a do nascimento de Jonas Salk, líder da primeira equipe que desenvolveu uma vacina contra a pólio.3
 

Como chegamos até aqui

As primeiras campanhas vacinais contra a poliomielite no Brasil foram nos anos 1960. Em 1971, o país criou o Plano Nacional de Controle da Poliomielite. No ano de 1984, veio o 'Dia D' da vacina contra a poliomielite.5

Em 1986, nasceu o personagem Zé Gotinha, um símbolo da vacinação infantil no Brasil e incentivo para as crianças irem acompanhadas pelos pais aos postos de vacinação. Por fim, em 1989, a poliomielite se tornou uma doença erradicada no Brasil.5

O médico pediatra e presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, nos conta como o sucesso da vacinação contra a pólio foi fundamental para a conscientização vacinal no Brasil. Ela vai além dos trabalhos médicos e passa pela comunicação, com uso de personagens cativantes como o Zé Gotinha e a disponibilização de imunizantes nos lugares mais remotos da nação.

"Temos campanhas de pólio que se iniciaram na década de 1980 e 1990 e se mantêm até hoje. Na década de 1990, começaram as campanhas de gripe, que também permanecem até hoje. Tivemos várias outras campanhas nesse período, como a de rubéola em 2008 e as campanhas de segmento do sarampo que, no geral, são repetidas a cada 4 ou 5 anos.

O próprio retorno do sarampo em 2018 levou o Programa Nacional de Imunizações (PNI) a fazer várias campanhas direcionadas a diferentes faixas etárias. Também temos a campanha de multivacinação para evitar os atrasos vacinais. É claro que com essas campanhas especiais, quando bem divulgadas, conseguimos ótimos resultados.

Também sabemos que, muitas vezes, as pessoas procuram a vacina de forma acentuada por causa do medo, como ocorreu recentemente com o aumento de casos de febre amarela. Não é algo que desejamos, pois a ideia é que todos estejam com sua vacinação em dia e não precisemos de campanhas adicionais."


A pólio pode voltar?

A baixa cobertura vacinal e a falta de medo dessa doença, que parece ter ficado em um passado tão distante, preocupa especialistas em pleno século 21. “A população não tem percepção desse risco. Quando se fala de pólio, parece uma teoria muito distante e ninguém se preocupa com essa questão. A vacinação contra a poliomielite acontece como uma rotina na nossa sociedade. Mas, com o medo de sair de casa e a falta de comunicação eficiente, nossa cobertura também cai”, disse a médica pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm.

Segundo ela, a cobertura vacinal está semelhante à da década de 1990, o que deixa as crianças suscetíveis ao retorno de doenças antes controladas.

De fato, a poliomielite é uma preocupação mundial no momento.  Segundo a Unicef, décadas de trabalho e vacinação em massa contra a poliomielite podem estar em risco com a pandemia de Covid-19, que levou à interrupção dos serviços essenciais de imunização no mundo todo.6

De acordo com documento divulgado pela entidade em 2020, mesmo quando a vacina está disponível, muitas pessoas não conseguem acessar por falta de transporte, medo da pandemia ou por não enxergarem a importância da vacinação. Esses fatores fizeram a vacinação cair pela metade em muitos países, sobretudo na África, o que pode favorecer um surto de poliomielite a qualquer momento.6

Outro levantamento feito em 2020 pelo Ministério da Saúde aponta que, entre as 15 vacinas do calendário infantil, metade não bate as metas desde 2015, o que inclui a vacina contra poliomielite.4

A queda da cobertura vacinal foi um fenômeno sentido globalmente. No Brasil, o recuo teve início em 2015, e, antes da pandemia, já pesavam fatores como horários de funcionamento das unidades de saúde, a circulação de informações falsas sobre a segurança das vacinas e até mesmo a impressão de que as doenças imunopreveníveis já deixaram de existir.4

Segundo Juarez, são anos de luta para eliminar uma doença de determinada comunidade, mas o tempo para que ela retorne é expressivamente menor. “Levamos quase 50 anos para eliminar o sarampo e, rapidamente, com baixas coberturas vacinais, tivemos essa volta. A coqueluche é uma doença que está controlada e, sim, pode voltar se as coberturas continuarem baixas como estão. O mesmo ocorre com a rubéola e, mesmo a pólio, que está erradicada no Brasil, pode voltar, já que a doença existe de forma endêmica em países como Afeganistão e Paquistão”, disse.

Não deixe passar!


A Sociedade Brasileira de Imunizações, presidida por Juarez, divulga todos os anos o calendário vacinal para todas as idades. Pais e responsáveis devem ficar atentos e, mesmo em caso de atraso, procurar as unidades de saúde para colocar a vacina em dia. Confira abaixo quais são as vacinas indicadas até os 19 anos no biênio 2020-2021.7

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