Minha mãe costuma dizer o seguinte ditado: “Não aprendeu nada e esqueceu a metade”. Pensando nisso, me vieram à cabeça algumas doenças sobre as quais não falamos há muito tempo. 

Você se lembra da paralisia infantil? Se a resposta for negativa, não tem problema, vamos mudar isso hoje. Mas, primeiro, é importante relembrar alguns pontos. 

Apesar de eu não ser tão velha assim (nasci em 1964), faz tempo que nós não ouvimos falar da paralisia infantil. No entanto, infelizmente tenho amigas que sofrem com sequelas da doença até hoje.

Dados mostram cenário atual da doença


De acordo com o Comitê Paralímpico Brasileiro, cerca de um terço dos 239 atletas brasileiros competindo nas Paraolimpíadas de 2008 tinham alguma sequela de pólio.4 Para que você tenha a dimensão do que foi essa doença, indico ainda a leitura do livro Pulmão de Aço – Uma vida no maior hospital do Brasil, autobiografia de Eliana Zagui.

Primeiro, é importante relembrar que uma das primeiras epidemias de pólio registradas no país foi em 1917.5,6 Na época, as autoridades sanitárias promoviam “o isolamento dos pacientes e as mais rigorosas precauções no que diz respeito às secreções nasais e bucais, fazendo desinfetar todos os objetos por eles contaminados”. Percebe que qualquer semelhança com a COVID-19 não é coincidência? 

Em 1988, foram registrados 350 mil casos da doença no mundo. Em 2018, foram apenas 29 casos. Por isso, fica aqui mais uma vez nosso muito obrigada às vacinas!

Surtos relacionados ao cVDPV

Portanto, na maioria dos países, graças ao sucesso das vacinas, quase não detectamos mais a poliomielite “selvagem”. O diretor de erradicação da doença na OMS, Michel Zaffran,1 esclarece que os surtos atuais afetam principalmente os países da África. São os chamados surtos de poliovírus circulantes derivado de vacina (cVDPV).

Questão um pouco complicada, os cVDPVs podem surgir, basicamente, em populações mal vacinadas. Eles são chamados “derivados da vacina” por serem uma forma alterada de uma cepa originalmente contida na vacina oral contra a poliomielite (VOP). 

“A VOP contém uma forma enfraquecida de poliovírus. Em ocasiões muito raras, ao se replicar no intestino humano, as cepas de VOP mudam geneticamente. Podendo, ainda, se espalhar em comunidades que não são totalmente vacinadas contra a doença”, afirma Zaffran.

Evitar a proliferação do vírus é a chave


Ainda segundo o diretor da OMS, alterações adicionais ocorrem à medida que esses vírus se espalham. E, se continuar contaminando uma população sub-imunizada, com o tempo, ele pode mudar geneticamente até o ponto em que recupera a capacidade de causar paralisia, originando um cVDPV.

“A baixa cobertura da imunização contra a poliomielite é o principal fator de risco para o surgimento e a disseminação de um cVDPV. O problema não é tanto a própria vacina, mas a baixa cobertura vacinal. Se a VOP for administrada a apenas uma parcela de uma grande população suscetível, o vírus da vacina se multiplicará. E poderá até mesmo mudar geneticamente e se espalhar naqueles que não foram vacinados”, ressalta o médico. 

Últimos registros


Em 2020, foram registrados 959 casos de poliomielite por esse motivo, em 27 países1,7 entre África, Leste do Mediterrâneo, Europa e Oeste do Pacífico. A vacinação contra poliomielite tinha uma missão ainda maior do que deter a paralisia infantil.

Segundo Ciro de Quadros,2 outro papel importante das campanhas era reforçar o programa nacional de vacinas. Ou seja, alcançar a imunização universal e mobilizar a sociedade. E, principalmente, mudar a mentalidade dos governos e população. 

Taxas de imunização


Agora vamos aos novos aprendizados. Vocês aprenderam com a pandemia expressões como “vacina não é tudo igual” e que “vacinas salvam vidas”. E isso está mais que correto! Cerca de 2 milhões de vidas são salvas todos os anos graças às diversas vacinas existentes, muitas delas tendo sido criadas há mais de 50 anos. 

No entanto, as coberturas vacinais no Brasil nunca foram tão baixas como agora,3 e doenças muito importantes como poliomielite, sarampo, coqueluche, entre outras, ameaçam voltar e colocar em risco a vida das crianças.8

Mais de 30% do público infantil não recebeu a vacina pentavalente (contra difteria, tétano, coqueluche, Haemophilus e hepatite B), e 35% não foram vacinados contra paralisia infantil, número extremamente preocupante.3

Esse é o paradoxo que vivemos atualmente. Com medo de expor os filhos à COVID-19, os pais não estão vacinando contra doenças que são muito mais perigosas para as crianças. São dados de extrema preocupação e que exigem o envolvimento de todos para que o problema seja solucionado. Isso inclui médicos, escolas e imprensa, e não apenas o poder público.3,8

Façamos nossa parte para superar esse desafio. Converse com seu médico, leve seu filho ao posto de saúde ou clínica de vacinas mais próximos. Se é responsável por uma escola, solicite e verifique corretamente a caderneta de vacinação todos os anos. 

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