1) Além do tratamento medicamentoso quando necessário, qual a importância de mudar alguns hábitos diários de pacientes com depressão e/ou ansiedade?


A depressão e a ansiedade são transtornos multifatoriais, ou seja, ocorrem pela interação entre fatores genéticos e ambientais.1,2 Há algum tempo se sabe que o estilo de vida está associado com maior ou menor morbidade e mortalidade e que maus hábitos de saúde podem aumentar o risco tanto para problemas de saúde física quanto de saúde mental.3


Embora mudanças em alguns aspectos da vida como sono, alimentação e frequência de atividade física sejam consequências conhecidas de transtornos mentais, hoje em dia sabemos que o inverso também é verdadeiro e determinados estilos de vida podem aumentar o risco de desenvolvimento ou agravamento de transtornos psiquiátricos.3 Por exemplo, maior índice de massa corpórea (IMC), tabagismo e maior consumo de álcool estão associados com pior saúde mental.4 Além disso, sono insuficiente e uma dieta mal equilibrada estão significativamente associados a sintomas depressivos.5 Por fim, são importantes preditores de depressão e ansiedade:6


  • sono insuficiente,
  • pior saúde geral,
  • estilo de vida menos saudável,
  • maior estresse.

É importante também mencionar que essa relação parece ser independente de fatores sociodemográficos, mas cumulativa, ou seja, quanto mais maus hábitos de saúde um indivíduo tem, maior sua chance de desenvolver depressão.3


Por outro lado, a prática de exercícios físicos e mentais é um fator positivo para a saúde mental.4


Assim, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade sugere que algumas práticas podem acelerar a recuperação de pacientes com depressão. Entre elas estão:7

2) Como a prática de exercícios físicos pode ajudar na melhora de sintomas de depressão e ansiedade?


Nas últimas décadas foram realizados diversos estudos que investigaram a relação entre exercícios físicos e transtornos psiquiátricos. Os resultados sugerem que a prática de exercícios físicos está associada à diminuição dos sintomas de ansiedade e depressão, melhora da saúde física, da satisfação com a vida, funcionamento cognitivo e bem-estar psicológico.8


Os mecanismos pelos quais a prática de exercícios físicos pode atuar como terapia complementar para ansiedade e depressão ainda não foram completamente elucidados, porém, os benefícios parecem se dar a partir de uma complexa interação entre mecanismos neurobiológicos e psicológicos.9


Nas vias neurobiológicas, sabe-se que ocorre:10

  • aumento de endorfinas, moléculas relacionadas ao aumento da resiliência à dor e ao estresse;
  • aumento nos níveis cerebrais de serotonina, neurotransmissor cuja diminuição está associada à depressão;
  • ativação da proteína quinase mTOR, relacionada com crescimento e metabolismo celular, em regiões cerebrais ligadas à cognição e comportamentos emocionais, diminuindo os efeitos do estresse, ansiedade e depressão;
  • modulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, atenuando a resposta de estresse e ansiedade;
  • redução da inflamação, cujo aumento está relacionado à patogênese dos transtornos psiquiátricos.

Entre os mecanismos psicológicos destacam-se:9


  • apoio social;
  • aumento na autoconfiança;
  • senso de domínio;
  • distração dos pensamentos negativos e sentimentos depressivos/ansiosos;
  • mudanças na autopercepção;
  • no transtorno do pânico, o treino também pode ser considerado como uma terapia de exposição.

Os formatos mais estudados envolvem de 3 a 4 sessões de exercício por semana, com duração de pelo menos 20-30 minutos por dia em programas de 8-14 semanas. Programas com atividades de intensidade moderada, como caminhada, parecem ser mais bem sucedidos do que os de atividade mais vigorosa. Além disso, a recomendação de um diário de atividades físicas e atividades diárias pode ser benéfica. Inclusive, a prescrição de exercícios físicos ou mensagens motivacionais entregues em papel parecem mais eficazes do que o somente aconselhar durante a consulta.9


Além dos exercícios físicos tradicionais, cujos benefícios como adjuvantes no tratamento de depressão e ansiedade já são bem conhecidos, é importante destacar que a prática de yoga e meditação mindfulness também demonstram resultados promissores, podendo ser recomendadas aos pacientes.11


3) Qual a importância do sono adequado para esses pacientes? Quais hábitos podem contribuir para uma boa noite de sono?


A má qualidade do sono está correlacionada com aumento de emoções negativas e diminuição de emoções positivas. Além disso, existe uma relação bidirecional entre saúde mental e sono, ou seja, há um aumento nos problemas de saúde mental conforme a qualidade do sono diminui, e a qualidade do sono é prejudicada quando os problemas de saúde mental aumentam.12


A higiene do sono é um conjunto de medidas que podem auxiliar em quadros de insônia13 ou distúrbios do sono,14 sendo estas algumas das medidas mais conhecidas:13,15